Educação pré e pós Covid-19

Chegamos ao fim de um ano difícil para a educação não só brasileira, mas mundial. Em razão da pandemia, nossos olhos se voltaram para a importância da escola, dos professores e do impacto de tudo o que é oferecido nas instituições de ensino no desenvolvimento das crianças e adolescentes.


Mas, como andávamos antes da COVID-19? Mesmo antes da pandemia o mundo já vivia uma crise no aprendizado. É o que nos mostra pesquisa do Banco Mundial publicada em meados de 2020.


Previamente à pandemia, 258 milhões de crianças e jovens em idade escolar primária e secundária já estavam fora da escola. Para os matriculados já era perceptível a baixa qualidade do ensino, isso de um modo geral e considerando os números totais. Ao falar de países de renda baixa e média já tínhamos uma taxa de Pobreza de Aprendizagem de 53%, o que significa que mais da metade de todas as crianças de 10 anos não conseguia ler e entender uma história simples apropriada para a idade.


Crianças e jovens mais desfavorecidos já tinham pior acesso à escola, as maiores taxas de evasão e os maiores déficits de aprendizagem, o que, em se tratando de Brasil, visualizamos com facilidade.


O mundo, enfim, já estava longe de cumprir a Meta de Desenvolvimento Sustentável 4, que compromete todas as nações a garantir que, entre outras metas ambiciosas, “todas as meninas e meninos concluam o ensino fundamental e médio gratuito, equitativo e de qualidade”.


E se assim o era, a pandemia COVID-19 ameaça tornar os resultados da educação ainda mais assustadores. Os impactos na educação, fechando escolas em quase todas as partes do planeta, causou um choque de todos os sistemas educacionais.


De acordo com a World Health Organization, a maioria dos governos de todo o mundo precisaram fechar as instituições de ensino na tentativa de conter a pandemia da COVID-19 e essa paralização provocou impacto em mais de 70% da população estudantil do mundo.


Os danos se agravarão ainda mais à medida que a emergência de saúde se traduz em recessão global. Mas não podemos simplesmente cruzar os braços e aceitar o insucesso: é preciso transformar a crise, evitando a perda de aprendizagem dos alunos por meio do ensino à distância e começando a planejar o retorno das aulas presenciais, o que representa prevenir o abandono escolar, garantir condições escolares saudáveis ​​e usar novas técnicas para promover a recuperação rápida da aprendizagem em áreas essenciais (assim que os alunos regressem à escola).


O sistema escolar pode voltar a se estabilizar e os países podem usar o foco e a capacidade de inovação do período de recuperação para "reconstruir melhor", não simplesmente reproduzindo as falhas dos sistemas pré-COVID.


Reabertura das escolas: entre a necessidade e o medo


Economia


O Fundo Monetário Internacional projeta que a economia encolherá 3% em 2020, uma queda muito maior do que durante a crise financeira global de 2008. Esse choque terá consequências graves para os governos e famílias e vai atingir tanto a demanda quanto a oferta de educação.


Há previsão de aumento no abandono escolar, principalmente nos grupos desfavorecidos; e mesmo para alunos que se mantenham conectados à escola, muitas famílias não poderão arcar com insumos educacionais, como livros em casa ou aulas particulares - até que a economia se recupere. Aliado a isso há previsão de transferência do setor privado para as escolas públicas, o que pode adicionar pressão nas instituições que já sofrem com pouco financiamento.


A economia mundial está combalida: o Banco Mundial revelou que antes do início da pandemia do coronavírus a dívida dos países mais pobres do mundo já havia atingido um recorde de US$ 744 e a dívida das 73 nações mais pobres do mundo cresce 9,5% ano a ano.

A instituição publicou em outubro de 2020 a última edição do relatório Estatística da Dívida Internacional e ressaltou que o fechamento (necessário) de fronteiras para impedir a disseminação da Covid-19 foi o grande responsável por arrasar economias em todo o mundo.


Ebola


O trabalho publicado pelo Banco Mundial traz um triste estudo de caso: quando as escolas reabriram após a crise do Ebola, que comprometeu quase um ano acadêmico inteiro em Serra Leoa, as meninas haviam sido bem mais prejudicadas que os meninos.


A evasão foi acompanhada pelo aumento do trabalho e casamento infantil, tanto para crianças e adolescentes. Os alunos que são forçados a desistir da escola ou experimentar declínios significativos na aprendizagem enfrentam produtividade e ganhos mais baixos ao longo da vida.


A desigualdade aumenta, já que esses impactos provavelmente são maiores para alunos pobres e marginalizados. Este declínio nas perspectivas econômicas pode levar, por sua vez, ao aumento das atividades criminosas e comportamentos de risco. São impactos adversos que podem reverberar por um longo tempo, perpetuando o ciclo vicioso de pobreza e desigualdade.


O estudo do Banco Mundial também nos mostra um choque econômico do lado da oferta da educação. Há a previsão de queda nos investimentos na área, reduzindo, dessa forma, os recursos à disposição dos professores. Seja ainda online ou quando as escolas reabrirem, em 2021 as redes de ensino contarão com menos aporte financeiro, sem contar a crise de saúde que ainda pode atinge alguns professores diretamente e a pressão financeira que muitos outros vão sofrer devido a cortes de salários ou atrasos nos pagamentos. O texto da pesquisa também relata que a falta de avaliações dos alunos durante os fechamentos faz com que os professores voem às cegas enquanto tentam apoiar seus alunos remotamente.


O provável aumento da pobreza na aprendizagem poderá, infelizmente, impedir toda uma geração de perceber seu verdadeiro potencial.


Políticas de reversão


O estudo indica algumas políticas que poderiam reverter o triste quadro esperado para a educação mundial. Elas seriam colocadas em prática em fases sobrepostas:


  1. enfrentamento;

  2. gerenciamento da continuidade;

  3. e melhoria e aceleração.


Para a primeira fase, ao lidar com fechamentos repentinos de escolas, a prioridade é proteger a saúde, a segurança do aluno e prevenir perda de aprendizagem. Então, o esperado é que, além de proteger alunos e famílias da infecção, seja implementada nutrição suplementar ou programas de transferência de dinheiro para garantir que quem dependa de programas de alimentação escolar não passe fome.


Para evitar a perda de aprendizagem são necessários programas emergenciais de aprendizagem remota, o que vimos acontecer da Nigéria à Noruega, com as devidas particularidades. Para isso podemos fazer melhor uso de plataformas como TV, rádio e smartphones, que podem alcançar praticamente todas as crianças, independentemente da renda.


Lembrando que sem abordagens inclusivas, sem políticas explícitas para alcançar os desfavorecidos, apenas as famílias mais ricas e mais educadas serão capazes de lidar com o choque causado pelo fechamento (necessário) das escolas.


Além de fornecer aprendizagem remota, os sistemas de educação devem prevenir proativamente o abandono escolar durante o período de afastamento, mantendo aberto o canal de comunicação e prestando apoio financeiro direcionado para alunos em risco.


A segunda fase serve para gerenciar a continuidade das medidas, ou seja, para prevenir, por exemplo, que regras em torno do distanciamento social sejam gradualmente relaxadas e garantir que as escolas reabram com segurança para que a recuperação da aprendizagem aconteça.

A reabertura de escolas pode ser um processo bastante complexo, com aberturas escalonadas e possivelmente ciclos de novos fechamentos durante crises. Por isso os sistemas precisam começar a se planejar, aprendendo com a experiência de redes de ensino como as da China e Cingapura, que já passaram pelo processo.


Uma vez que os alunos estiverem de volta às escolas, a recuperação do aprendizado é prioridade, evitando impactos permanentes sobre as oportunidades das crianças e jovens, o que inclui avaliações aprimoradas em sala de aula até pedagogias e currículos mais focados. São esforços que precisarão de orientações claras para todo o sistema de ensino, ou seja, de treinamento prático focado para gestores e professores. E, claro, o essencial: orçamento destinado à educação.


A fase três inclui um processo para oportunizar a reconstrução de sistemas educacionais mais fortes e mais equitativos do que antes. Um desafio e tanto, principalmente para países que não tem a cultura da valorização da educação.


Conclusões


Segundo o estudo em análise, crises como a que presenciamos em razão da pandemia da Covid-19 conferem às sociedades uma oportunidade real de "reconstruir melhor". Deveríamos, portanto, aproveitá-la para desenvolver processos para, em futuras ocasiões, agir com mais eficácia, agilidade e resiliência, oferecendo para a comunidade escolar soluções emergenciais inovadoras efetivas.


Em se tratando do Brasil, uma análise nossa é a de que é importante aprender com os erros passados e não se curvar ao determinismo de insucesso futuro.


Podemos aprender com bons exemplos de dentro e fora do país e, depois de mitigar os danos causados pelo fechamento das escolas, planejar para que, quando a medida se fizer necessária novamente, exista mais acesso, por exemplo, às tecnologias em sistemas de aprendizagem remota, a sistemas de alerta precoce para evitar o abandono escolar e a pedagogias adequadas para que se mantenha a construção de habilidades fundamentais. Isso, claro, juntamente com um aumento do suporte para pais, professores e alunos.


A prioridade deve ser sempre proteger a saúde e a segurança da comunidade escolar para, em seguida, assegurar que os alunos se mantenham envolvidos por meio do aprendizado remoto e outras conexões com a escola.


Lembrando que fechamentos de escolas (e de toda sorte de serviços) são esperados e previsíveis. Se a atual pandemia pegou grande parte do mundo de surpresa, não mais poderemos alegar espanto em futuras ocasiões.

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