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O Teto de Papel e a dificuldade na conquista de vagas de trabalho por falta de diploma universitário

Recentemente, uma reportagem da BBC News Brasil divulgou um tema interessante que tem sido debatido com frequência nos Estados Unidos e que deve ser mais discutido também no Brasil: a dificuldade que algumas pessoas encontram quando da procura por emprego por não possuírem a qualificação formal desejada pelos futuros empregadores. A vaga de trabalho existe, a princípio é ideal para aquele indivíduo, mas não há como se candidatar, pois o cargo exige um diploma universitário inexistente. O ´fenômeno´, conhecido como ´Dismissed by Degrees´ - e normalmente traduzido como ‘teto de papel’ - tem afetado a oportunidade de trabalho de milhões de pessoas nos EUA. E o mesmo ocorre, provavelmente, no Brasil.


Os dados que temos hoje a respeito são dos Estados Unidos, trabalhados pela ONG Opportunity at Work; a organização lançou nesse ano uma campanha para promover a conscientização sobre a questão. É que naquele país é muito comum que os trabalhadores se formem na prática, por meio de cursos ou programas de formação não acadêmicos - até durante o serviço militar, não se envolvendo com o meio acadêmico.


De acordo com a ONG, e segundo os dados trazidos pela reportagem da BBC, esse tipo de trabalhador representa mais de 50% da força de trabalho dos EUA, incluindo aí 61% de afro-americanos e 55% de cidadãos de origem hispânica. Nas minorias, o número de profissionais sem grau universitário continua sendo maior do que a média do país, chegando a assustadores 72% entre os cidadãos afro-americanos e 79% entre os de origem latina maiores de 25 anos.


Existem muitos prejuízos para esses profissionais sem formação universitária, a começar pela diferença salarial com os que a possuem. Além disso, quando conseguem se empregar, enfrentam grandes dificuldades para atingir níveis de gerência nas empresas onde trabalham.


Inteligência Artificial


Programas de inteligência artificial são muito usados hoje para os processos de recrutamento e seleção de pessoal e eles utilizam o diploma universitário como filtro; não raro favorecem candidatos egressos de universidades específicas, mais prestigiadas. Os programas também valorizam experiências profissionais que já exigiram o diploma.


É importante lembrar, como foi feito na reportagem, que algoritmos não são exatamente tendenciosos. São os recrutadores que os treinam, a partir de suas necessidades. E o mercado de trabalho condiciona a existência de diploma à percepção de capacidade.


Inflação de diplomas ou de graus


Outro ponto discutido quando o debate sobre o ´Teto de Papel´ vem à tona é o da inflação de diplomas, que é a exigência crescente de graus mais altos de escolaridade para determinados empregos, mesmo quando isso não é necessário para executá-los.


Não é incomum que vagas de empregos que normalmente exigiam cursos técnicos agora exijam o diploma de bacharelado. Da mesma forma, os que, no passado, solicitavam o bacharelado agora demandem especialização ou mestrado. Alguns estudiosos alegam que essa prática tende a reduzir a capacidade das pessoas que estão ingressando na força de trabalho de aprender com a experiência profissional, sendo incentivadas a permanecer na escola por períodos mais longos para obter (mais) certificados e diplomas.


O problema não seria qualificar-se adequadamente. As críticas são no sentido de que um número crescente de egressos da graduação não teria hoje a formação suficiente para obter um diploma universitário nos anos anteriores. E, por isso, os empregadores têm exigido graus de escolaridade mais altos. Ou seja, essa inflação acadêmica seria uma consequência de instituições de ensino com baixos requisitos de admissão e projetos pedagógicos insuficientes.


Números discrepantes


De acordo com os dados do Escritório de Estatísticas Trabalhistas dos EUA, hoje são 10,3 milhões de vagas de emprego em aberto e cerca de 6 milhões de pessoas desempregadas. Muitas vagas em aberto são de prestadores de serviços que saíram de seus empregos em busca de salários e condições melhores. Por outro lado, existe a crise de falta de profissionais qualificados.


A questão do chamado "teto de papel" não é nova e surge antes da crise deflagrada pela pandemia. Ainda de acordo com a reportagem da BBC, um estudo da Faculdade de Negócios de Harvard de 2017 já salientava que essa prática de exigir grau universitário desnecessariamente impedia que as empresas encontrassem os talentos de que precisavam para crescer e prosperar, dificultando que os cidadãos americanos tivessem acesso a trabalhos que proporcionassem a base para um nível de vida digno.


Não por menos, um grupo de grandes empresas encabeçou uma campanha para conscientizar o empresariado a descartar a praxe. E é claro que não se trata de desencorajar o ensino superior; o que se pretende aqui é evitar a exigência de diplomas ou graus acadêmicos desnecessários e prestigiar a busca por não graduados com experiência de trabalho relevante, considerar parceria com organizações comunitárias locais para atingir bons candidatos ou oferecer novas oportunidades para trabalhadores mais velhos e experientes.


Quando as empresas revisam as especificações para trabalhos de habilidades intermediárias e identificam as principais competências necessárias para realizá-los, elas até podem combiná-las com diplomas, certificados ou programas internos de treinamento específicos que criam caminhos de carreira para quem não possui diploma. O que barra a contratação de eventuais bons profissionais é o diploma como pré-requisito.


É interessante perceber que pode ser muito mais econômico contratar não graduados e, em seguida, fornecer treinamento em sala de aula ou mesmo treinamento remoto, personalizado ou em grupo, de acordo com as necessidades da empresa. É uma mudança de mentalidade que pode favorecer o contratado, o contratante e, de quebra, toda a economia de um país.


No caso, à medida que os funcionários avançam na empresa, o nível de treinamento aumenta, fornecendo acesso a habilidades de supervisão e, eventualmente, habilidades de liderança. Em algum momento é esperada a ideia de exigir um diploma universitário para determinados cargos; o que não se deve fazer é barrar o ingresso de um talento para a organização, sem reconhecer que as pessoas vêm de vários caminhos, unicamente porque, naquele momento, ela ainda não possui um diploma universitário.


Conclusões


Não dá para negar que um diploma universitário é uma aspiração legítima para todas as pessoas e deve ser feito todo o esforço necessário para remover as barreiras que impedem qualquer jovem com aptidão e motivação para ingressar no ensino superior.


Contudo, algum impedimento (momentâneo que seja) em obter o título da graduação não deve ser uma barreira para a entrada no mercado de trabalho.


Pesquisa publicada pela Harvard Business School, intitulada Dismissed by Degrees: How Degree Inflation Is Undermining U.S. Competitiveness and Hurting America's Middle Class, demonstra que a perspectiva dos empregadores tem implicações importantes para os educadores e para os formuladores de políticas públicas. E que uma das principais causas, se não a principal, do fenômeno do ´teto de papel´ é a percepção do empregador de que trabalhadores sem diploma não são capazes de realizar mais tarefas de habilidades intermediárias de hoje.


Mas, sobretudo, a pesquisa ressalta o quanto as empresas podem se beneficiar sendo mais diretas e específicas sobre suas práticas de contratação. Elas devem assumir a liderança em lidar com a lacuna de habilidades, revertendo o ´teto de papel´ e a inflação de diplomas. Lembrando que milhões de americanos – jovens ou não - estão prontos e dispostos a trabalhar. Sem mencionar que eles representam algumas das populações mais vulneráveis em razão da raça, religião, etnia ou até mesmo por um histórico de encarceramento.


Ao encontrar maneiras de atrair, contratar e reter esses trabalhadores, as empresas norte-americanas podem fazer uma diferença tangível em sua própria capacidade de competir, bem como oferecer oportunidades de carreira para esses desempregados.


Enfim, como dissemos no início, os dados trazidos neste texto são relativos à realidade estadunidense, mas se considerarmos que a meta do Plano Nacional de Educação (PNE) de ter 33% dos brasileiros de 18 a 24 anos matriculados no ensino superior, prevista para ser alcançada em 2024, só será atingida em 2040, ou seja, com 16 anos de atraso, há grandes chances de o brasileiro também perder oportunidades de trabalho por falta de diploma de graduação.


O assunto precisa ser discutido e trabalhado dentro das empresas e, obviamente, ser pauta das políticas públicas, inclusive para que as gestões sejam melhor trabalhadas consigam atingir as metas de desenvolvimento pretendidas.


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