• Ana Luiza Santos e Edgar Jacobs

As 4 tendências dos cursos superiores para 2020

Muitos são os fatores responsáveis por mudanças estruturais no modelo educacional do país, especificamente em relação aos cursos superiores. Podemos citar o fator custo reduzido como preponderante, mas também o acesso facilitado à tecnologia, a comodidade deste acesso, as modificações legais permitindo novos cursos, as características destes novos cursos e as grandes mudanças no mercado de trabalho.


A tecnologia já transformou e continua transformando todos os setores da sociedade e não seria diferente com a educação. Em verdade, a estruturação do aprendizado continuará sendo a partir da construção individual do estudante e o papel do professor será sempre a do facilitador: o que muda de maneira explícita é o contexto da interação aluno e professor, seja no espaço físico ou temporal.


Vejamos, pois, as 4 tendências dos cursos superiores para 2020.


1 - Uso de EAD


Em relação ao EAD as principais causas de seu crescimento são o custo e a capilaridade. De acordo com o último senso da educação superior, realizado pelo INPE, há 299 IES públicas e 2.238 IES privadas no Brasil, totalizando 2.537 IES em todo o vasto território nacional. São 5.570 municípios para 2.238 instituições de ensino superior, mas não são exatamente estes números que impactam. A questão é a concentração de IES nas regiões mais populosas do país, deixando extenso território carente.


A excelente capilaridade, então, proporcionada pela Internet, permite que o interessado, onde quer que esteja, se beneficie do estudo a distância através de cursos na modalidade. O estudante acessa os cursos de onde estiver, no tempo que escolher, bastando o adequado acesso a Internet.


Além da flexibilidade de tempo e espaço, o EAD contempla as pessoas individualmente ou em grupo, em qualquer local, até mesmo estando os indivíduos do grupo dispersos territorialmente. O EAD permite ótima interatividade entre professores, grupos e alunos, dirimindo dúvidas e trocando experiências, com a maior adaptabilidade possível. Afinal, o conteúdo pode ser facilmente atualizado ou corrigido.


A excelência de um curso EAD é baseada na qualidade do conteúdo proposto, no tipo de suporte oferecido ao aluno, na qualidade do material utilizado e na facilidade de interação do ambiente virtual de aprendizagem. Além disso há um perfil de aluno que mais se adequa às condições do EAD, qual seja, com habilidade de interpretação de textos, familiaridade com o uso do computador e acesso à Internet, boa capacidade de comunicação e interação com outras pessoas.


Escolher um bom curso EAD e dedicar-se ao aprendizado é uma excelente maneira de construir novos conhecimentos, aperfeiçoar-se em alguma área específica, desenvolver relacionamentos profissionais e encontrar oportunidades, até mesmo porque a formação proporcionada pelo curso oferecido a distância é a mesma do presencial.


Seguindo essa tendência, ou, talvez, incentivando-a, a Portaria 2.117 do MEC indicou em dezembro de 2019 que as IES poderão incluir carga horária na modalidade de EAD na organização pedagógica e curricular de seus cursos de graduação presenciais até o limite de 40% da carga horária total do curso, um bom exemplo da tecnologia dos cursos a distância integrada aos cursos tradicionais. Anteriormente, como regra, havia o limite de até 20% da carga horária destinada ao ensino a distância. A propensão, enfim, é de que cada vez mais haja a integração entre as duas propostas.


Publicamos a respeito em dezembro de 2019: vale a leitura para melhor conhecimento da Portaria 2.117 do MEC.


Entendendo os possíveis ganhos, tanto para as instituições quanto para os estudantes, a EAD se mostra como uma forte tendência a ser adotada em 2020.


2 - Integração dos conteúdos tradicionais com a tecnologia


Além da integração proporcionada pela inserção do EAD nos currículos de cursos presenciais, a tecnologia demanda que as instituições renovem suas grades curriculares. A forte e real presença e influência da tecnologia na sociedade contemporânea modificou o contexto do mercado de trabalho e a atualização dos currículos universitários é necessária.


Esta tendência se materializa desde a forma mais simples, com a integração de material didático digital, utilização de impressoras 3D, adoção de estratégias de gamificação, software de acompanhamento de rendimento escolar, realização de avaliações a distância e demais dispositivos de apoio e suporte ao ensino presencial até os mecanismos mais avançados, como correção automatizada de avaliações - inclusive de textos livres produzidos pelos alunos.


A infinidade de dados gerados nestes processos é chamada de big data, um termo que se refere ao grande volume de dados gerados pelos sistemas. A análise destes dados possibilitará uma melhor compreensão da escola a respeito das necessidades dos estudantes, orientando de forma mais eficiente o aprendizado. De maneira mais prática, o professor poderá fazer uma investigação do comportamento do aluno na plataforma, compreender quais são suas dificuldades e oferecer conteúdos mais apropriados. Existe aí um enorme potencial de avançar no ensino e otimizar a resolução de problemas: para visualizar o rendimento de uma determinada turma, por exemplo, a IA garante precisão na análise dos dados, sendo viável a demarcação de trilhas individuais de aprendizado.


Obviamente, as instituições de ensino terão em mãos uma grande quantidade de dados, pessoais ou não, dos alunos, havendo a necessidade de adequar-se o quanto antes à LGPD, que entra em vigor em meados deste ano. Leia nossos textos:


Como e por que se adequar à LGPD


O consentimento do aluno nos termos da LGPD


As exceções ao consentimento do aluno nos termos da LGPD


O Encarregado de Proteção de Dados nas IES


A tecnologia influencia o cenário do trabalho e das profissões. O reflexo disso, claro, retorna para a escola. Exemplo disso é a criação do curso superior em Inteligência Artificial pela Universidade Federal de Goiás, com aulas iniciando no primeiro semestre de 2020. A criação deste curso indica uma forte tendência, que também se materializa em cursos de especialização em ciência de dados e business intelligence, por exemplo. Testemunhamos mudanças importantes no mundo dos negócios, nas relações entre as pessoas e na formação do mercado de trabalho. Este novo curso evidencia um enorme potencial a ser explorado.


Voltando para a sala de aula, temos um excelente exemplo de uso de IA pelo Centro Educacional Sesi 415, na zona leste de São Paulo. Lá, cerca de mil alunos têm à sua disposição uma plataforma virtual que apresenta o plano de estudo, as atividades que deverão ser realizadas, incluindo vídeos para serem assistidos e exercícios indicados pelos professores. A plataforma possibilita que o aluno acompanhe seu desempenho em cada matéria e, à medida que as atividades são completadas, o sistema identifica – via algoritmos – o quanto do conteúdo foi apreendido e quais aulas ele deve assistir para sanar as dúvidas.


Do outro lado, os professores medem o aprendizado de cada estudante e turma, passam aulas complementares e recebem a correção automática dos exercícios. De maneira alguma a figura do professor será descartada. Ele treina o sistema e guia todo o trabalho, do início ao fim, fornecendo, acima de tudo, o imprescindível contato humano.


Esta escola é um exemplo do que outras várias instituições já estão fazendo com a Inteligência Artificial, de forma que cursos e formação multidisciplinar que envolvam o trato, a adequação e aprimoramento de sistemas de IA estão na ordem do dia.


3 - Cursos hand on


Ao longo do tempo, o foco das habilidades requeridas dos alunos e profissionais tem mudado. A prioridade hoje é focar em características emocionais e na criatividade, que pode ser bastante estimulada quando o estudante coloca a mão na massa, literalmente. Além de estimular a criatividade, os cursos práticos (cursos hand on) possibilitam uma absorção melhor do conteúdo, solidificando os saberes com práticas de laboratório e atividades empíricas, ao mesmo tempo em que se desenvolvem habilidades e competências específicas.


Nosso curso de Direito de Informação e Proteção de Dados nas Instituições de Ensino, por exemplo, alia ao vasto conteúdo teórico quatro atividades práticas que permitem ao aluno a verificação da captação e compreensão da matéria apresentada.


Fato que os sistemas de educação precisam proporcionar experiências dinâmicas para os aprendizes, através das quais eles possam vivenciar (utilizando-se, por exemplo, de impressoras 3D) como implantar o conhecimento, trabalhar com os outros, desenvolver qualidades pessoais críticas e aprender a partir do resultado da prática em si.


Uma mistura dinâmica de teoria e prática pode servir muito mais ao estudante do que cursos cujos conteúdos não sejam facilmente associados ao cotidiano; é importante se libertar do padrão ‘aula + testes padronizados´.


4 - Metodologias ativas e personalização do ensino


O modelo tradicional de ensino é conhecido como passivo. É aquele em que o aluno acompanha a matéria lecionada pelo professor, protagonista da educação, por meio de aulas expositivas, com aplicação de avaliações e trabalhos. Na metodologia ativa o aluno é o maior responsável pelo processo de aprendizado.


A busca pelo abrandamento do modelo tradicional de ensino deu-se por meio de conclusões de vários estudos na área de que, entre os meios utilizados para adquirir conhecimento, há alguns cujo processo de assimilação ocorre mais facilmente.


A referência é uma teoria do psiquiatra americano William Glasser, que explica que os alunos aprendem cerca de 10% lendo, 20% escrevendo, 50% observando e escutando, 70% discutindo com outras pessoas, 80% praticando e 95% ensinando. As metodologias ativas priorizam o trato dos três últimos itens na dinâmica das aulas e têm se tornado cada vez mais utilizadas.


Embora ainda haja controvérsias e dúvidas a respeito do estudo de Glasser, algumas características da teoria, como uma postura mais ativa da parte dos estudantes e a valorização do debate, são muito bem vindas e seguidas pela estratégia da sala de aula invertida. A metodologia prevê que o aluno estude e consulte os materiais educacionais antes das aulas e posteriormente participe de conversas, troca de ideias e tire suas duvidas com o professor.


O ensino híbrido também mistura atividades com e sem o professor, de forma que o aluno, com o apoio da tecnologia e dos recursos disponíveis na Internet, estude sozinho e, em sala de aula, estude e discuta (em grupo ou não) com o professor. Metodologias ativas incluem aprendizagem baseada em projetos, aprendizagem baseada em problemas e estudo de caso, podendo ser fenomenais se adequadamente inseridas como estratégia pedagógica.


A personalização do ensino também é uma inovação de grande valor. Afinal, cada estudante é único, tem interesses e talentos diversos, respondendo de maneira diversa aos estímulos recebidos. Dessa forma, a personalização do ensino é a utilização de práticas que permitam o desenvolvimento do estudante de maneira individualizada, respeitando suas limitações e capacidades. Tendência muito bem vinda.


Outros dados e conclusão


Dados de pesquisa realizada pela Pearson PLC mostram que:


A informação de que quase metade dos estudantes se dedicam ao autodidatismo utilizando-se de recursos da Internet quando precisam de um conhecimento específico é bastante interessante. Há mais ou menos uma década o filão ‘aula online’ tornou-se lucrativo tanto para os produtores de conteúdo quanto para os espectadores.


O YouTube é a plataforma mais conhecida de divulgação deste material e hoje já podemos vislumbrar professores de português, matemática e história com mais de 2 milhões de seguidores. A expansão desta forma inovadora de ensino também pode ser creditada à expansão dos sistemas educacionais on-line, que abriram novos caminhos para que professores atuassem autonomamente e permitissem que milhões de estudantes acessassem conteúdos de grande valor.


A circulação da informação é global e está a poucos cliques, mas nem por isso podemos dispensar a orientação de quem ler e seguir, fazendo com que a figura do professor ou tutor continue sendo de grande importância. Nesse sentido, a crescente demanda e oferta de conteúdo educacional observada no YouTube deve servir de dica para as IES, que precisam rever a forma como os estudantes consolidam conhecimento.


Enfim, os sistemas da educação e os professores querem tornar o ensino mais dinâmico. As 4 tendências dos cursos superiores para 2020 estão diretamente ligadas com o desenvolvimento de métodos mais eficazes de ensino e aprendizagem.


Estes métodos têm sido endossados não apenas por alunos e professores, mas pela comunidade em geral, que percebe que o educando de hoje tem pela frente um futuro repleto de tecnologia inteligente, com inúmeras oportunidades e desafios.



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