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Edgar Jacobs 2019

  • Edgar Jacobs

Metodologias de Ensino e Gerações: mudanças ao longo das décadas

Cada ser humano é produtor e produto do conhecimento e se encontra inserido em uma cultura que é resultado de sua própria história, mas também de todos que viveram antes dele. A história pessoal é influenciada pela convivência em determinada comunidade, pelos costumes, conhecimentos e saberes locais e também pelos acontecimentos sociais como revoluções, golpes políticos e eventuais guerras.


Os fatos variam e se modificam entre as sociedades, mas também variam e se modificam ao longo dos tempos. O homem do século IXX não é o homem do século XX, sendo que hoje uma ou duas décadas já diferenciam indivíduos e suas estruturas mentais e comportamentais.


Enfim, existem habilidades humanas instintivas, porém muitas outras requerem auxílio, treino, assimilação de conhecimento e aprendizado. São as que exigem um processo de educação. Seja sistemático, escolar, ou menos formal, promovido pelos pais, familiares, meio social e cultural no qual o indivíduo está inserido.


Indivíduos nascidos nas várias gerações contidas nos séculos XX e XXI precisam e se beneficiam sobremaneira do ensino baseado em concepções pedagógicas variadas e adequadas às suas peculiaridades, sempre tendo em vista que, a partir de 88, a CF foi explicita em permitir a concepção pedagógica plural, bem como a diversidade de ideias (art. 206, III da CF/88).


Pois bem, o Século XX iniciou em 1° de janeiro de 1901 e terminou em 31 de dezembro de 2000, contemplando as Gerações Perdida, Grandiosa, Silenciosa e logo depois a Geração dos Baby Boomers, os nascidos entre 1940 e 1960.


Os Baby Boomers são a geração que nasceu pós Segunda Guerra Mundial, geralmente por volta de 1946 a 1964, época marcada por um aumento nas taxas de natalidade. São pessoas que sempre pretenderam um emprego para a vida toda e valorizaram a ascensão profissional. São leais, comprometidos com a empresa em que trabalham, competitivos e focados em resultados. Em relação à tecnologia, utilizam seus dispositivos eletrônicos para fins mais tradicionais, como para fazer ligações e navegar na internet, sendo suas redes sociais mais utilizadas o Facebook e o Linkedin.


Pessoas mais experientes, muitas vezes estão ocupando cargos de diretoria e gerência nas empresas, o que faz com que sejam os mais consumidores. Possuem raciocínio linear, focando na aprendizagem com início, meio e fim. Dão muita importância a programas de capacitação, preferem ler e seguir programas de ensino tradicionais, de forma que não vêem com bons olhos os treinamentos inteiramente à distância. Para esta geração o semipresencial pode ser um bom caminho, com momentos de aulas e debates, mas também interação com o conteúdo online, ativando o contato com novas tecnologias.


Há Baby Boomers ainda em processo de transformação digital, ou seja, aprendendo e se conscientizando das mudanças ocorridas e há os que já alcançaram a maturidade digital, adaptados ao mundo online, que já faz parte de seu cotidiano.


Ainda no Século XX temos as Gerações X e Y. A Geração Z é a dos indivíduos nascidos em meados dos anos 1990 até o ano de 2010, ou seja, a geração que permeia dois séculos.


A Geração X é a geração seguinte aos Baby Boomers. Os demógrafos e pesquisadores costumam dizer que são os nascidos entre 1961 e 1980. Esta Geração presenciou o Golpe Militar de 64, viu o homem chegar à lua e acompanhou o surgimento do computador pessoal, da internet, do celular e e-mail.


É uma geração de pessoas independentes e empreendedoras, que valorizam a estabilidade, equilibradas e que não se precipitam na tomada de decisões. Embora um pouco resistentes a mudanças, tiveram que aprender a usar a internet quando o mundo ainda era off-line. Adaptam-se rapidamente a tecnologias, utilizam-se de recursos tecnológicos para consumir informação, mas ainda a consomem off-line. Valorizam a flexibilidade e a aprendizagem colaborativa, o que lhes abre portas para o auto aprendizado online.


A Geração Y, também chamada de Geração dos Millennials, compreende as pessoas nascidas entre 1977/78 e 1995. Alguns pesquisadores usam tipicamente o início dos anos 1980 até meados da década de 90 como anos de nascimento.


Os Millennials valorizam a empresa em que trabalham, mas estão sempre em busca de melhores condições. Possuem grande criatividade e capacidade de inovar em suas carreiras. São autônomos, acreditam em trabalho em equipe, são informais e imediatistas. Assumem mais riscos, mas buscam recompensas tangíveis; possuem preparo intelectual e acadêmico.

Sempre conectados, cresceram com os recursos tecnológicos à disposição, sendo iniciados no desktop, mas migrados para o mobile. Como estão acostumados com um grande fluxo de dados, consomem informações com facilidade e rapidez e são tidos como indivíduos com capacidade de fazer várias coisas ao mesmo tempo, sem perder o foco. Os multitarefas.


Muito interessante que as pessoas desta geração valorizam treinamentos, ótima oportunidade para colocar gestor e colaborador juntos. Contudo, consomem conteúdos curtos e objetivos. Os Millennials cresceram jogando videogames; logo, estratégias que envolvam jogos podem ser bastante estimulantes sem perder o foco no aprendizado e treino de novas habilidades.


A Geração Z ou Geração dos Centennials é a geração dos indivíduos nascidos em meados dos anos 1990 e 2010. Contempla pessoas que nasceram no século XX e século XXI. Hoje são crianças a partir de 9 anos aos já adultos de 23. Jovens recém-chegados ao mercado de trabalho, desapegados, pouco fãs de burocracia e fãs do home office. Populares nas redes, podem ter dificuldade de trabalhar em grupo. Usam basicamente dispositivos móveis para acessar Youtube, Instagram e Snapchat, redes sociais visuais.


Os Centennials arriscam, são realistas, competitivos, independentes; sentem necessidade de expor suas opiniões. Valorizam ações criativas e possuem profunda intimidade com a tecnologia. Afinal, são os primeiros nativos digitais, termo criado pelo norte-americano Marc Prensky para aquele que nasceu e cresceu com as tecnologias digitais presentes em sua vivência. Este grupo de pessoas possui, de acordo com o escritor, novas características que consolidam um abismo em relação aos imigrantes digitais, especialmente em relação ao raciocínio não-linear.


Consomem informação via celulares e tem preferência por vídeos curtos, fotos e jogos. Aprendem de várias maneiras, conseguindo ser multifocais. São autodidatas em vários assuntos e buscam por si mesmos informações, geralmente em vídeos na internet.

É uma geração que parece ter dependência dos dispositivos eletrônicos e, por consequência, sofrem uma deficiência do saber aprofundado. Está construindo uma outra forma de conhecimento. Estratégias de realidade aumentada, realidade virtual e games são eficientes para esse grupo. Tem-se falado que o processo de aprendizado deve respeitar a preferência de consumir informação em pequenas doses.


A Geração Alpha abrange os indivíduos nascidos a partir de 2010, ou seja, são as nossas crianças atuais, com até 9 anos de idade. Utilizam celulares com habilidade, são espontâneas e autônomas. Possuem poder de adaptação acelerado e interagem com a tecnologia desde o nascimento. Devem herdar os comportamentos da Geração Z e também desenvolver as tecnologias de realidade aumentada em 3D.


Esta Geração está em pleno desenvolvimento, consome informação em diversos canais, especialmente on demand e, apesar de ser a que mais possui acesso a novas tecnologias, podem se adequar a uma educação híbrida, ou seja, online e off-line. Os Alpha possuem raciocínio não-linear, têm dificuldade com leituras de textos e possuem dificuldade em se concentrar. Neste ponto se verifica que a tecnologia deve favorecer os sentidos de audição, tato e visão das hoje crianças da Geração Alpha, que se beneficiarão de soluções que fogem ao convencional e abrangem diversos sentidos.



As pessoas mudaram? Por quê?


Pois bem, foi em um artigo publicado em 2001 que Mark Prensky lançou os termos “nativo digital” e “imigrante digital”, sendo que estes conceitos têm sido divulgados como resumo da ideia de que crianças e jovens se desenvolvem modificados pela tecnologia. Os termos foram replicados à exaustão. O imigrante digital conheceu a tecnologia tardiamente e, por isso, precisa se adaptar a ela. Pode ter dificuldade em abandonar antigos métodos por soluções digitais e prefere o físico ao digital. Já o nativo digital cresceu cercado por tecnologias digitais como internet, smartphones e tem facilidade de usá-los. Ele vê a tecnologia como aliada e considera antigas e ultrapassadas as tecnologias analógicas do século XX. O escritor afirma, inclusive, que talvez nem seja o aprendizado que esteja em processo de mudança, mas as ferramentas que o auxiliam. E neste ponto faz toda a diferença o indivíduo ser um imigrante digital ou um nativo digital.


Mais de quinze anos depois, pesquisadores da educação confrontam as ideias de Prensky e afirmam que os conceitos trazidos por ele - de nativo digital ou do multitarefa, por exemplo – não têm embasamento científico e que modificar métodos de ensino com base neste “novo estudante” pode ser um grande erro. Para eles o nativo digital é apenas ficção e que mesmo havendo jovens para os quais as tecnologias são realidade desde sempre, não há comprovação de que houve mudança na forma como pensam e aprendem. Fato que se as mudanças não ocorreram em razão da conectividade nata, ocorreram porque “o mundo global não é mais o mesmo, nem o mundo humano”, como diz Michel Serres em Polegarzinha.


“Esse novo aluno, essa jovem estudante nunca viu um bezerro, uma vaca, um porco, uma ninhada. Em 1900, a maioria das pessoas no planeta trabalhava na lavoura ou com gado; em 2011, a Franca, assim como países semelhantes, não tem mais de 1% de camponeses entre seus habitantes. Deve-se ver nisso uma das mais fortes rupturas na história, desde o neolítico.


Aqueles que aqui apresento não vivem mais na companhia dos animais, não habitam mais a mesma Terra, não têm mais a mesma relação com o mundo. Ela ou ele admira apenas a natureza arcadiana, aquela do lazer e do turismo.


Beneficiários de uma medicina finalmente eficaz e de medicamentos antálgicos e anestésicos, eles sofreram menos do que seus antepassados, do ponto de vista estatístico.

Enquanto as gerações anteriores assistiam às aulas em salas ou auditórios universitários homogêneos culturalmente, eles estuam em uma coletividade em que agora convivem várias religiões, línguas, origens e costumes. Para eles e para os professores, o multiculturalismo é a regra.” (Michel Serres em Polegarzinha, Ed. Bertrand Brasil)


Ainda de acordo com o filósofo Michel Serres, a criança e o jovem de hoje são formados pela mídia e formatados pela publicidade. Habitam o virtual e podem manipular várias informações ao mesmo tempo. Mas não conhecem, não integralizam os conhecimentos como os antepassados. São um novo ser humano, nascido no curto espaço de tempo que nos separa dos anos 1970.


Enfim, seja em razão do uso de tecnologias digitais, de forma nata ou não, seja em razão da mudança social e humana dos tempos, somos hoje seres diferentes e temos necessidades diferentes, especialmente dentro do contexto escolar.


Existirem projetos político-pedagógicos diversos, termos a autonomia de escolha do modelo de ensino que nos vai beneficiar, diz muito sobre a liberdade de sermos e nos expressarmos dentro da sociedade. Não por menos o pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas foram elencados como princípios do ensino em nossa Constituição Federal.

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