Crianças e adolescentes e o excesso de telas na pandemia

Há duas décadas aproximadamente, a Academia Americana de Pediatria sugeriu que os pais limitassem o consumo de TV por crianças com menos de dois anos de idade. As recomendações baseavam-se tanto na ciência quanto no bom senso, pois os estudos sobre o consumo de mídia e o desenvolvimento infantil ainda estavam incipientes.


Passados aproximadamente 10 anos, a pesquisa cresceu e ficou madura o suficiente para a AAP lançar uma nova declaração com base científica sobre bebês assistindo televisão, vídeos ou qualquer outra forma de mídia passiva. O veredicto foi de que não é bom e provavelmente é pernicioso.


A mídia, seja em segundo plano ou projetada explicitamente como uma ferramenta educacional infantil, tem "efeitos potencialmente negativos e nenhum efeito positivo conhecido para crianças menores de 2 anos", concluiu o relatório da AAP, divulgado ainda no ano de 2011, na reunião anual da Academia em Boston e publicada na revista Pediatrics. A OMS também já bateu o martelo em relação ao tema.


As recomendações iniciais da entidade foram feitas em 1999, época em que as telas de entretenimento passivas - televisores, aparelhos de DVD, computadores com streaming de vídeo - tornaram-se onipresentes, e a criança média de apenas 1 ano já ficava entre uma e duas horas em tela por dia.


Naquela época ainda não eram tão comuns aparelhos interativos tipo tablets e celulares, que entraram agora nas novas recomendações.


E a partir dessa idade, como fica?


Vivemos uma realidade em que as telas substituíram a escola e apenas através delas há o encontro com amigos e parentes. Além disso, há grande apelo comercial pelo uso de todos os tipos de gadgets e normalmente pais que já se convenceram de que não há mais como limitar essas atividades de seus filhos.


Pois bem, à medida que as telas proliferavam nos idos anos 2000, também crescia o número de pesquisas a respeito. Antes da pandemia, as recomendações da Academia Americana de Pediatria (AAP), bem como da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), para crianças de 2 a 5 anos eram de 1 hora por dia de programas de alta qualidade. Para crianças com 6 anos de idade ou mais - abrangendo a adolescência – eram de duas horas por dia.


Se as recomendações já eram dificilmente respeitadas antes da quarentena, com a pandemia o cenário piorou bastante e as crianças e adolescentes que têm acesso à tecnologia passam pelo menos 50% de seu tempo em frente a telas. Isso é o que sugere um estudo americano realizado em meados de 2020, que adverte aos pais que esse excesso pode afetar o sono, comprometer a alimentação adequada, prejudicar a audição, provocar dor nas costas e no ombro - pela permanência em uma mesma posição durante muito tempo - e gerar distúrbios visuais. Tudo isso além de diminuir a socialização e aumentar a obesidade e o sedentarismo, já que as atividades físicas ficam em segundo plano.


Também há uma série de riscos aos quais a criança e o adolescente ficam expostos como usuários na internet. As redes sociais – não indicadas para esse público, a propósito - modificam a realidade do indivíduo imaturo, podem expô-los à violência, à pornografia e causar toda uma série de transtornos mentais.


O que fazer com meu filho?


Nesse momento de pandemia, o mundo digital está sendo utilizado com muito mais frequência, quase de modo constante e com um papel funcional importante. O uso das telas hoje serve para o desempenho das tarefas escolares, para aulas, pesquisas e compras à distância. Também há o uso afetivo para assegurar a presença, ainda que virtual, de avós, primos e colegas e, não podemos esquecer, às vezes é o único caminho para pedir socorro da violência doméstica.


As recomendações médicas, portanto, nesse momento, infelizmente não vão acolher a realidade de milhões de crianças e adolescentes. O que não quer dizer que limites não devam ser impostos.


De acordo com a entidade médica brasileira, o mundo digital ficou dividido em antes da COVID-19, durante o período da quarentena e após a quarentena. Ante a falta de escolhas e alternativas ao excessivo contato com o mundo digital durante a quarentena, os pais devem estar atentos a questões simples, que nos são apresentadas como as seguintes sugestões:


É preciso ter tempo para a saúde, com o sono dentro do horário adequado para cada faixa etária, bem como o número de horas. Isso é importante não só pelo descanso, mas também para a produção de hormônios, de maneira fisiológica.


Ter uma alimentação regular também é de suma importância. A Sociedade Brasileira de Pediatria alerta que é preciso ter horários para o café da manhã, almoço, lanche da tarde e jantar, cuidando da qualidade não só nutricional, mas sem excesso calórico. Aliada à alimentação, a atividade física deve ser regular, propiciando à criança e ao adolescente a prática de exercícios ou brincadeiras com movimentos ativos.


Sobre as crianças menores de 2 anos, a recomendação não se modificou. Telas só devem ser utilizadas para relacionamento com parentes/amigos e gerenciadas pelos pais. Nas outras idades, é importante combinar um tempo para esse contato, sempre com alguma monitorização.


A família precisa encontrar um tempo para criar novas formas de interação e afeto. Conhecer seus filhos, suas habilidades, suas dificuldades e seus limites e também para os pais se conhecerem nesta função. Juntos podem obter momentos de lazer, seja com jogos de tabuleiro, baralho, leituras e conversas fora das telas.


Estamos – de fato – em um período complicado e ainda de quarentena. Atividades em meio à natureza são excelentes aliadas neste momento e, definitivamente, recomendadas. Seja em alguns momentos durante a semana ou nos finais de semana, passeios, caminhadas, brincadeiras ao ar livre são medidas de promoção da saúde e prevenção à transmissão do coronavírus.


Lembrando que toda cidade tem uma praça, um parque, uma área verde que poderá ser frequentada pelas famílias, de maneira responsável, de modo a não causar aglomeração e maiores riscos. Atividade gratuita e extremamente benéfica.


Por fim, pais e filhos também podem aprender juntos sobre segurança, proteção e privacidade nas redes. Os filhos menores devem ser orientados para os perigos online e como fazer o uso seguro das tecnologias de informação e comunicação. Aprender sobre canais para denúncias e apoio em relação aos atos de violência, com contato com a escola ou as redes de suporte e canais de ajuda online também podem ser benéficas.


Importante


Existe um tempo funcional para assistir aulas, fazer pesquisas e tarefas. Isto vai ser variável com a faixa etária, a qualidade da escola, se tem internet e se tem equipamento adequado para isto. Nos dizeres do documento apresentado pela SBP, é importante pontuar sobre a abordagem pedagógica da escola e a quantidade e qualidade das aulas e da educação online, pois são questões que impactarão na saúde psíquica comportamental e no processo educacional desses grupos sociais.


O problema não é de hoje


Crianças e adolescentes fazem parte da geração digital e usam os dispositivos, aplicativos, videogames e a internet cada vez mais em idades precoces e em todos os lugares. Segundo a SBP, alguns pais, também nativos digitais, já não percebiam as mudanças ou problemas que vinham surgindo, como se tudo já fosse parte da rotina familiar.


Com a pandemia, milhões de crianças foram impedidas de frequentar a escola e a família – também em casa, trabalhando – iniciou uma luta diferente para mantê-las ocupadas. Mesmo depois dos trabalhos escolares, ainda há horas no dia para preencher e as telas se tornaram a primeira (e talvez a única) opção para muitos.


Todavia, mesmo nessa circunstância estressante, é crucial gerenciar as atividades dos filhos. E – importante – os limites não devem ser deixados de lado.


Um dia-a-dia diverso, cumprindo com certa regularidade horários de sono, atividades físicas, alimentação, brincadeiras, leituras e momentos de ócio é necessário. E é dentro dessa rotina que devem entrar as aulas online, a TV, os jogos digitais e não o contrário. O mundo digital não pode e não deve ser a tônica da vida da criança e do adolescente.


A pandemia pode ter potencializado certos comportamentos e práticas dentro das residências, mas é preciso que os pais sejam veementemente alertados para os danos que algumas delas podem causar. As escolhas e decisões precisam ser conscientes. E lembrando que é sempre hora de mudar e recomeçar.