As consequências da pandemia na educação podem ser piores que o esperado

Atualizado: há 7 minutos

Novas evidências mostram que as paralisações causadas pela pandemia COVID-19 podem exacerbar as lacunas já existentes na educação.

Nenhum sistema educacional moderno foi construído para lidar com paralisações prolongadas como as impostas pela pandemia do COVID-19. Professores, gestores e pais têm trabalhado duro para manter o aprendizado vivo; no entanto, é bem provável que esses esforços não sejam suficientes para fornecer a qualidade da educação oferecida na sala de aula.

Ainda mais preocupante é o contexto da desigualdade social/racial. Se as disparidades de desempenho entre estudantes brancos e negros já era enorme - e essa análise pode ser feita também considerando a diferença de renda estrutural - as paralisações escolares aumentarão as lacunas já existentes e também poderão levar um grande número de estudantes a desistir do ensino formal, acentuando ainda mais o desequilíbrio.

E, obviamente, essas diferenças impactam na economia de um povo, como podemos ver na relação, por exemplo, entre o diferença de escolaridade da população e a renda entre as regiões brasileiras.

Caso é que os dados relativos à desigualdade escolar foram coletados antes do fechamento das escolas. Os danos a longo prazo em razão desse fato ainda são de difícil mensuração, mas com certeza significativos, já que os alunos com melhores condições financeiras continuaram recebendo aulas on-line e os estudantes em situação crítica tiveram as aulas completamente suspensas.

Neste texto vamos focar nos alunos do ensino médio que puderam de alguma forma migrar do ensino presencial para o ensino a distância, tendo como parâmetro pesquisa americana realizada com base em estudos sobre a eficácia do aprendizado remoto em relação à instrução tradicional em sala de aula. Sempre considerando que o aprendizado “perdido” durante o fechamento da escola varia de acordo com o acesso ao aprendizado remoto, a qualidade da instrução, o suporte doméstico e o grau de envolvimento (tanto familiar quanto individual).

Não podemos confundir o EAD com o ensino emergencial a distância

Renata Costa, professora universitária do centro universitário Brazcubas, ensina: “O ensino remoto praticado atualmente [na pandemia] assemelha-se a EAD apenas no que se refere a uma educação mediada pela tecnologia. Mas os princípios seguem sendo os mesmos da educação presencial”.


A educação a distância, como explica a professora, pressupõe o apoio de tutores de forma atemporal, carga horária diluída em diferentes recursos midiáticos e atividades síncronas e assíncronas, o que não acontece exatamente durante a quarentena.


Porque, claro, não havia um plano de contingência educacional administrativo para essa realidade e a maioria das instituições não estavam preparadas nem tecnologicamente nem teoricamente.


De fato, o EAD pode ter um desempenho tão bom ou melhor que as escolas tradicionais, mas o ensino emergencial a distância pode não fornecer os resultados acadêmicos das instruções em sala de aula e a perda de aprendizado provavelmente será maior entre estudantes de baixa renda, menos propensos a ter acesso a aprendizado remoto de alta qualidade ou a um ambiente de aprendizado propício, como um espaço silencioso com distrações mínimas, dispositivos que não precisam compartilhar, internet de alta velocidade e supervisão acadêmica dos pais.

Nos Estados Unidos, dados da Curriculum Associates, criadores do software de instrução e avaliação digital i-Ready, sugerem que apenas 60% dos estudantes de baixa renda estão regularmente acessando instruções on-line; 90% dos estudantes de alta renda fazem isso. As taxas de engajamento também estão atrasadas nas escolas que atendem predominantemente negros e hispânicos; apenas 60 a 70% fazem login regularmente.

Não possuímos dados recentes em relação à mesma situação no Brasil, mas, além da perda de aprendizado, a suspensão das aulas em razão da pandemia provavelmente aumentará as taxas de abandono do ensino médio nas regiões mais carentes.

Em tempos de aulas presenciais, a instituição apoia crianças e adolescentes vulneráveis a permanecerem na escola: há engajamento, relacionamento com professores atenciosos e muitas vezes um espaço acolhedor. Também em circunstâncias normais, os alunos que perdem mais de dez dias de escola já têm mais chances de desistir.


Interessante mencionar que inúmeras pesquisas foram realizadas quando da ocorrência do furacão Katrina, em 2005, e do furacão Maria, em 2017. Os resultados foram que de 14% a 20% dos estudantes jamais voltaram à escola. Esses fenômenos naturais foram de impacto gigantesco e podem nos dar uma ideia de que um grande número de estudantes podem desistir dos ensinos formais em razão do fechamento das escolas neste momento, ainda mais com a situação de incerteza quanto ao retorno ao presencial.

Danos sociais e emocionais


Além das taxas de perda e abandono da aprendizagem, há fatores de difícil mensuração. É muito provável que a crise cause perturbações sociais e emocionais, aumentando o isolamento social e criando ansiedade diante da possibilidade de que os pais possam perder o emprego e os entes queridos possam adoecer.

Marcos importantes também têm sido cancelados, como cerimônias de formatura, campeonatos esportivos e eventos extracurriculares. São exemplos do que pode reduzir a motivação acadêmica e prejudicar o desempenho e o envolvimento.

O que se imagina é que a perda de aprendizado vá se estender além da pandemia, considerando, além de tudo o que foi mencionado, que a situação econômica global restará prejudicada.

Ondas de contaminações

É preciso ver à frente. Em um cenário epidemiológico de ressurgimento do vírus, ou seja, em um cenário em que os surtos do coronavírus se repitam em ondas, haverá a necessidade de fazer paralisações periódicas nas aulas presenciais, isso pelo menos ao longo do ano de 2021, o que – com certeza – gerará impacto no número de abandono escolar.

O dano aos indivíduos é consequência certa. A médio e longo prazo, com níveis mais baixos de aprendizado e maior número de desistentes, os alunos afetados pela COVID-19 provavelmente serão menos qualificados e, portanto, menos produtivos do que os estudantes de gerações que não tiveram lacuna semelhante no aprendizado.


A solução para a grave questão passa pelo apoio governamental, pois a urgência está em intervir imediatamente para apoiar os alunos vulneráveis. As iniciativas – como sugerem o estudo norte americano já mencionado - podem ser trazidas para o Brasil e podem incluir a expansão de programas assistenciais já existentes e programas que contem com acadêmicos em suas atividades, especialmente aqueles que precisam de estágios práticos. Empresas particulares também podem aderir a programas governamentais, beneficiando-se com isenções de impostos. De qualquer forma, é preciso esforço do governo, em todas as suas esferas, para que se amenize o transtorno causado pela pandemia na educação.

Muito interessante o ponto exposto no texto “COVID-19 and student learning in the United States: The hurt could last a lifetime”, de que a necessidade de aprendizado remoto contínuo não pode ser uma desculpa para inação ou indiferença. É que existem exemplos de educação on-line de alta qualidade e atingir esse nível deve ser a expectativa geral.

O texto ainda menciona o fato de que, embora ninguém saiba exatamente qual nível de aprendizado em sala de aula será possível para o ano letivo de 2021, é possível, em um cenário epidemiológico não tão favorável, que os alunos precisem ficar em casa por pelo menos parte dele. Então o tempo é de aprender a tornar as instruções mais eficazes.


A dinâmica do processo não é simples nem fácil, pois exige que os professores tenham a instrução necessária e consigam, para além do pedagógico, engajar e envolver os alunos. Também exige que os alunos tenham infraestrutura física adequada (como laptops, tablets e boa banda larga) e, dependendo da idade dos estudantes, pais conscientes que possam colaborar para criar um bom ambiente de aprendizado em casa.

Não se pode esquecer que todos os atores do processo deverão contar com serviços sociais e de saúde mental para que possam lidar com o estresse da pandemia, que não deve ser menosprezado.

A diferença de desempenho dos alunos no Brasil, especialmente no ensino básico, tem sido atribuída às más condições das escolas públicas e sua persistência é preocupante. A pandemia COVID-19 piora o panorama e o fato merece atenção.

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