Uma análise da UNESCO sobre os impactos da COVID-19 no ensino superior

Atualizado: 26 de Nov de 2020

A UNESCO, em 06 de abril de 2020, publicou um valioso documento chamado “COVID-19 y educación superior: De los efectos inmediatos al día después . Análisis de impactos, respuestas políticas y recomendaciones”, sobre o qual nos debruçamos e trouxemos as principais ideias e constatações, considerando o contexto de forçada e abrupta interrupção de aulas para aproximadamente 1,57 bilhão de estudantes em 191 países, que nos levou a uma implantação acelerada de soluções de EAD para garantir a continuidade pedagógica.

Este relatório, preparado pelo Instituto Internacional da UNESCO para o ensino superior na América Latina e no Caribe (UNESCO IESALC), único instituto especializado do sistema das Nações Unidas neste campo, concentra seus estudos sobre a região mencionada, mas as estratégias e resultados de pesquisa podem ser mais amplamente aplicados.

De qualquer forma, vamos focar nos aspectos brasileiros e sugerimos a leitura acerca dos países relativos, todos ameaçados por fatores ligados às desigualdades sociais amplamente conhecidas como a baixa conectividade, falta de conteúdo on-line alinhado com os currículos nacionais e um corpo docente não preparado.

Importante é constatar a falta de referências a crises semelhantes no passado, tornando mais difícil prever o que pode acontecer no futuro imediato.

O impacto para os alunos

Estimativas da IESALC mostram que o fechamento temporário das IES afeta aproximadamente 23,4 milhões de estudantes e 1,4 milhão de professores na América Latina e no Caribe, o que representa, aproximadamente, mais de 98% da população de estudantes e professores de ensino superior na região.

Os primeiros países a fecharem as portas das instituições de ensino, segundo o relatório, foram El Salvador e Colômbia, em 12 de março, dia em que também já tínhamos IES fazendo o mesmo em nosso país.

O impacto mais imediato foi obviamente que a cessação temporária de atividades presenciais deixou estudantes, principalmente os de graduação e aqueles prestes a entrar na educação superior, sem uma ideia clara da continuidade de seu aprendizado e de como seriam os encargos financeiros suportados, somada às preocupações com o isolamento social, a (falta de) conectividade à Internet e a fragilidade no abandono dos estudos.

Os alunos tiveram que reorganizar suas rotinas para se ajustarem a uma situação de confinamento: os que estavam no mesmo país retornaram às suas famílias, mas os estudantes no exterior possuem situações variadas, existindo hoje dezenas de milhares de pessoas incapazes de retornar aos seus países devido ao fechamento de aeroportos e fronteiras.


A perda do contato social e das rotinas de socialização que fazem parte da experiência diária de um estudante de ensino superior trazem um custo ao equilíbrio socioemocional principalmente nos alunos com problemas pré-existentes neste domínio. Ou seja, o isolamento atinge de forma mais severa alunos mais vulneráveis.


Os estudantes e suas famílias - exceto nos poucos países onde não há taxas - terão que continuar a se encarregar dos custos associados ao ensino e os mais vulneráveis, que contam com auxílio estudantil para acomodação, alimentação ou transporte reportam suspensão ou manutenção de seus benefícios, que também sofrem impactos econômicos do fechamento temporário das instituições.


Há também a preocupação com o mercado deprimido que os estudantes que se formam em 2020 e 2021 irão enfrentar, trazendo dificuldades no pagamento de seus empréstimos e créditos universitários.

As IES que puderam ofertar a fórmula EAD apresentaram o desafio aos estudantes, mas também escancararam o problema da baixa conectividade. Na América Latina e no Caribe apenas uma em cada duas famílias é conectada. Como já expusemos em texto nosso, estima-se que 67% dos brasileiros têm acesso à internet, mas o acesso em alta velocidade a partir de dispositivos como computadores ou tablets é mais restrito às classes A e B. Entre as classes D e E esse número despenca para 42%, normalmente feito via celular, com internet limitada. Aponta-se que 70% dos moradores das cidades estão conectados, mas nas áreas rurais apenas 44% dos moradores tem acesso à internet e a lógica da disparidade é a mesma: também nas áreas rurais o conectado é o cidadão das classes A e B. O mais pobre é excluído.


Para os estudantes conectados, a classe comum transmitida ao vivo é a mais apreciada, pois é a que melhor reproduz a dinâmica à qual estão acostumados. O comportamento dos alunos em pós-graduação parece ser mais aberto a metodologias participativas como sala de aula invertida. A maturidade educacional é que permite maior disciplina e comprometimento por parte do aluno, o que talvez explique mais sucesso dos pós-graduados.


O corpo docente


O relatório foca nos impactos da suspensão das aulas presenciais sobre os alunos, mas não restam dúvidas de que o corpo docente sofre efeitos significativos. Em primeiro lugar, nem todas as IES têm alternativas para a continuidade da atividade de ensino e, na sua ausência, contratos temporários podem ser encerrados.

Por outro lado, há o impacto nos professores da expectativa do porvir, especialmente no que toca ao desenvolvimento de competências profissionais através de práticas (clínicas, residências, carreiras pedagógicas, de design, engenharia, ciências experimentais e, em geral, todas fortemente dependentes de oficinas práticas, trabalho de laboratório ou práticas institucionais). Incertezas que andam lado a lado com a angústia pelo sobrecarregamento de informações e a frustração derivada de limitações na conectividade ou a falta de know-how para a operação de plataformas e recursos digitais.

Demais funcionários

A situação dos demais funcionários das IES (não-docentes, da administração e dos serviços) é igualmente de risco, principalmente quando suas principais tarefas não são consideradas críticas para a continuidade do ensino. Nestes casos, espera-se que os governos adotem medidas para a proteção destes empregos, ameaçados em caso de possível adstringência financeira devido à inadimplência, cancelamento de matrículas, trancamentos etc.


Instituições de ensino superior


Em relação às IES, a cessação temporária das atividades presenciais causou uma grande ruptura em seu desempenho. O impacto em cada uma é variável, dependendo da capacidade de manter-se ativa em suas atividades acadêmicas e de possuir sustentabilidade financeira.

Os esforços feitos para continuarem ministrando cursos no modo virtual foram notáveis em todos os lugares e, dada a falta de experiência com situações semelhantes, hercúleos. Mesmo as instituições suficientemente maduras nos sistemas EAD não poderiam cogitar o cenário que se apresentou e precisaram de intervenção de suporte técnico externo.

O sistema


Como um todo, verificou-se que as IES têm sido uníssonas em continuar oferecendo ensino em modalidades pedagógicas que não exigem presencialidade. As dúvidas ficam intensas quanto mais forte se apresenta a hipótese de uma duração prolongada da situação excepcional. Nesse caso, os efeitos sobre o sistema serão múltiplos e deverão ser examinados sob a ótica da demanda e oferta, dificuldades adicionais para a governança.


Já se prevê um número de estudantes que não retornarão às salas de aula quando as atividades presenciais forem retomadas e outros tantos continuarão a frequentar cursos a distância de ensino superior. Isso, em primeiro lugar, em razão de fatores econômicos, mas também pelo impacto na experiência do aluno face a interrupção do ano acadêmico. Haverá, com certeza, afetação das taxas de retenção e persistência, principalmente entre as populações em risco: estudantes de baixa renda, mulheres, grupos étnicos ou minoritários sub-representados, de áreas rurais, deficientes físicos, bem como que os têm saúde mental ou aprendizado afetados.

No caso de grupos vulneráveis, o relatório da UNESCO orienta compensações realizadas pelos líderes governamentais, que devem se comprometer no apoio a esses estudantes em situação de risco. Caso contrário, eles serão vítimas secundárias da pandemia e suas consequências.


Também é esperado que muitas universidades entrem no mercado EAD, aproveitando os esforços que fazem agora para expandir sua capacidade de oferecer programas online.

Políticas públicas e respostas institucionais


O relatório apresentado pela UNESCO faz uma crítica ao governo federal brasileiro, que não desejou ir além de apenas estabelecer poucas recomendações em relação às IES e a pandemia. No caso, o governo até poderia justificar essa omissão em razão dos altos níveis de autonomia das IES, bem como salientar que as decisões a respeito da educação passam também pelos estados e municípios, mas em alguns países, como na Nova Zelândia, o parlamento decidiu que o governo assumiria as rédeas de todas as escolas e universidades, facilitando a tomada de decisões urgentes.


Ou seja, políticas públicas podem ser utilizadas para facilitar decisões que exigem tempo para a geração de consenso.

Medidas administrativas também podem ser adotadas, como modificações nos calendários de aulas, datas de inscrições para exames, facilitando a reorganização dos compromissos. Em instituições conceituadas por todo o mundo foram cancelados – pela primeira vez - exames de admissão, mostrando que o Brasil, via MEC, nadou totalmente contra a corrente quando se negou a postergar o ENEM, sendo necessária a pressão de um projeto de lei que previa a medida.

Também ao redor do mundo, fundos de assistência para emergências educacionais foram criados. Na região, o Chile foi o único que tomou providências para atender alunos que contam com algum tipo de bolsa ou apoio financeiro e que, cancelando as atividades da sala de aula, podem estar em uma situação difícil.

O governo brasileiro optou por expandir a capacidade da Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNEP) de oferecer maior capacidade de aulas por videoconferência para as universidades e institutos federais; capacidade que foi aumentada em 50%, permitindo que existam até 10.000 acessos simultâneos à plataforma, cobrindo um total de 123.000 estudantes individuais.


Alguns números são indicativos do volume de atividade que algumas instituições de ensino superior desenvolvem no EAD. Na USP/SP, por exemplo, são realizadas 12.000 videoconferências por dia no Google Meet, 210 defesas de tese e acontecem 170 pós-graduações. São 45.