Instituições de ensino devem dominar sua comunicação digital


No dia 04 de outubro desse ano, uma segunda-feira, aproximadamente 3,5 bilhões de pessoas em todo o mundo se perceberam sem as ferramentas de rede social Facebook, Facebook Messenger, WhatsApp e Instagram por pelo menos 6 horas.


Vale lembrar que o Workplace, ferramenta do Facebook que agrega 7 milhões de assinantes pagos, também ficou “fora do ar”; foram inúmeros pequenos negócios que perderam dinheiro em negociações não realizadas.


Os problemas técnicos foram percebidos por volta das 13h (horário de Brasília), deixando empresas que se utilizam dessas redes sociais para se conectar com os clientes já com a perspectiva de um impacto financeiro negativo. Fato que, desta vez, segundo a Downdetector, cerca de 10,6 milhões de problemas foram relatados em todo o mundo — o maior número já registrado até então.


As especulações foram várias, com relatos que davam conta que havia um colapso dentro dos servidores do Facebook, com funcionários incapazes de acessar a sede física da empresa por falha na tecnologia.


Ao final do dia, contornados os problemas perceptíveis, o Facebook informou que esteve offline por uma alteração de configuração incorreta que impactou sites, aplicativos e também ferramentas internas da empresa, como e-mail interno e crachá de trabalho dos funcionários. Informou também que não havia evidências de que os dados dos usuários teriam sido comprometidos.


O acesso às plataformas foi retomado por volta das 19h (horário de Brasília) e essa tarde conturbada gerou uma imediata queda no valor das ações do Facebook.


O que se detecta inicialmente


A primeira coisa que podemos detectar desse evento é que muita gente tem dependido de um único sistema para sobreviver.


O Facebook tem uma gama de serviços que as empresas, sites e aplicativos estão usando como suporte único de apoio para seus negócios e quando se tem um problema generalizado como o do dia 04 de outubro, todos os serviços param de funcionar.


Como mencionamos, o Facebook também investiu no ramo de vendas online, com a plataforma Marketplace, e de pagamentos com a ferramenta WhatsApp Pay, que permite transações dentro do próprio aplicativo. Sem falar na publicidade, consolidada há cerca de uma década na empresa.


E, desta maneira, a empresa vai açambarcando para si toda a sorte de serviços e mantendo – de um jeito ou de outro – as demais empresas reféns de suas funcionalidades. E se uma instituição não domina sua comunicação digital, se posicionando apenas no Instagram, por exemplo, se torna vítima de contingências como essa.


A propósito, de acordo com a Comissão Federal de Comércio dos Estados Unidos, o Facebook vem construindo um monopólio no ramo das redes sociais através de condutas anticompetitivas. E, justamente por isso, a empresa é ré em uma ação judicial que pede o desmembramento da companhia, entre outras medidas.


O Facebook – que comprou o Instagram por US$ 1 bilhão em 2012 e o WhatsApp por US$ 19 bilhões em 2014 - teria crescido no mercado com uma estratégia de "comprar ou matar" os rivais, prejudicando competidores e usuários. Segundo a Comissão, as aquisições foram feitas com o único objetivo de eliminar ameaças ao monopólio da empresa.


Vale dizer que outras empresas de tecnologia, como o Google, a Amazon e a Apple enfrentam cobranças parecidas ao redor do mundo. Ao que tudo indica, as inovações vêm sendo compradas pelas grandes empresas de forma corriqueira.


Chance para mudança


A pane que deixou cerca de 3,5 bilhões de pessoas no escuro digital no último dia 04 de outubro vem corroborar um pedido de reflexão feito por alguns estudiosos do assunto “Redes Sociais”.


O professor Caio Cesar Giannini Oliveira, da PUC Minas, por exemplo, é uma voz brasileira que vem demonstrando como pode ser perniciosa a priorização do uso de plataformas para tratar da presença tanto individual quanto comercial no contexto digital.


Fato que, nos anos 2000, as iniciativas de comunicação publicitária compreendiam, em regra, a ação de publicar conteúdo em sites próprios, de forma independente. A eficiência em chegar aos potenciais compradores era catalisada pela emergência dos mecanismos de buscas (como o Google) e os esforços das empresas eram dirigidos para a obtenção da atenção daqueles que estavam no processo de encontrar a solução por elas oferecida.


Com o surgimento e a popularização dos sites de Redes Sociais, o processo de participação de pessoas físicas e empresas na Internet se modificou. As plataformas de Rede – e hoje o Facebook como a maior delas, como já vimos – se tornaram centrais na intermediação de relações entre pessoas. Elas se tornaram muitas vezes “o” espaço de interação das empresas com seus públicos.


Neste momento, o processo de produção, circulação e consumo de informações já não era mais baseado em sites; ele passou a ser uma funcionalidade da plataforma Facebook, que, por sinal, implementou várias maneiras de conhecer seus usuários e lhes proporcionar fácil acesso aos sites que eles valorizam.


As empresas (e aí se incluem as instituições de ensino) trabalham para o Facebook, despejando material na rede e se esforçando para obter mais seguidores e ainda pagam para que as postagens alcancem um número maior de público, colocando a plataforma, nas palavras do professor Caio Cesar [1], na mesma posição de empresas de mídia de massa. Ou seja, a ideia inicial de que as Redes Sociais constituiriam espaços livres onde os participantes (pessoas ou empresas) poderiam se relacionar, publicar e fazer informações circularem de maneira independente é uma fantasia na prática, inclusive pelo modelo de faturamento baseado na intermediação das mensagens postadas.


Além dessa questão, outro grande problema que temos visto ocorrer é que, quando há um apagão de uma única empresa, muitas outras empresas perdem o controle dos processos comunicacionais. E desnecessariamente, já que a web é um sistema aberto e que o RSS ainda é uma tecnologia bastante atual e utilizada.


Em verdade, as instituições de ensino devem, sim, utilizar as Redes Sociais, mas jamais como única forma de se fazer comunicação publicitária no contexto digital. Ou como única forma de comunicação com seu público. Elas devem ser o espaço para publicizar a mensagem e levar as pessoas para o site da instituição, de onde vai partir a comunicação.


Enfim, não é uma boa solução gerir a comunicação digital de sua instituição de ensino apenas nas Redes Sociais, deixando que uma ou poucas corporações controlem ou decidam o que se pode ou não ver, como sempre o fez a mídia de massa. Da mesma forma, não é inteligente investir tanto dinheiro em conteúdo e não medir esforços para manter um público que sempre será controlado via algoritmo.


Também, panes como a do dia 04 de outubro podem (e vão) se repetir e não é nada prudente uma instituição de ensino perceber extensos prejuízos porque entregou o controle do suporte de toda sua comunicação com seus alunos (e eventuais alunos), professores e parceiros a uma única grande corporação.

Não se trata de ter um plano B para quando ocorrer uma pane equivalente ou quiçá pior: as instituições de ensino devem sempre dominar sua comunicação digital e utilizar as Redes Sociais como suportes ou ferramentas adicionais para um esquema de comunicação digital robusto e independente, que proporcione o acesso direto aos diferentes públicos de interesse das organizações.


[1] Reflexões necessárias sobre a plataformização das atividades sociais na Internet; Caio Cesar Giannini OLIVEIRA. Publicado em “Fluxos em redes sociotécnicas: das micronarrativas ao big data



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