Neurociência e educação

O cérebro é a parte mais importante do nosso sistema nervoso: ele nos proporciona a consciência das informações que chegam pelos órgãos dos sentidos. Essas informações são comparadas com expectativas e vivências anteriores, permitindo que emanemos respostas voluntárias ou não. Dessa forma, atuamos sobre o ambiente.


Isso ocorre por meio de circuitos nervosos constituídos por bilhões de neurônios, células que se especializaram na recepção e condução de informações e passaram por um complexo processo de organização, formando cadeias bastante complexas. A evolução permitiu esse arranjo que hoje as neurociências nos permitem conhecer.


Todo novo conhecimento é armazenado no sistema nervoso e hoje já conhecemos como a memória é recuperada e como nos esquecemos do que foi aprendido. No livro Neurociência e Educação, Como o cérebro aprende, os autores Ramon M. Cosenza e Leonor B. Guerra relatam que existem evidências que indicam que a recuperação das informações é feita ativamente e depende do funcionamento da região pré-frontal, também envolvida no controle da memória de trabalho, componente cognitivo ligado à memória que permite o armazenamento temporário de informação.


No caso, de acordo com os autores mencionados, a recuperação de uma informação é mais eficiente dependendo de como ela foi armazenada. Se o processo de armazenamento ocorreu criando-se vínculos com as informações já existentes, a rede de interconexões será mais extensa e poderá ser acessada de vários pontos. O acesso se torna mais fácil.


E da mesma forma que as conexões sinápticas podem ser formadas pela prática, elas podem ser desfeitas pelo desuso. Por isso muito do que aprendemos se perde em algum momento. O cérebro é aperfeiçoado para guardar o que se repete ao longo do tempo, pois, provavelmente, é o que é relevante para a sobrevivência. Esse processo não impede que as informações estejam ali, em verdade; muitos dados estão apenas com acesso dificultado pelo enfraquecimento ou desuso das ligações que podem recuperá-los.


Até os anos 50, a propósito, nada se sabia sobre a existência de sinapses químicas cerebrais.


O professor como facilitador


Novas pesquisas e investigações nos mostram quais tipos de estratégias funcionam melhor para que a aprendizagem seja mais eficaz. São descobertas que nos conduzem a novas abordagens, bem diferentes – inclusive - das que vem sendo utilizadas na maioria das escolas.


O que conhecemos hoje nos permite dizer que se o professor puder examinar e abordar um assunto mais de uma vez e em diferentes contextos vai facilitar a ocorrência dos processos mencionados. Como relatado por Ramon M. Cosenza e Leonor B. Guerra:


“A consolidação, resultante de novas conexões entre as células nervosas e do reforço de suas ligações, demanda tempo e nutrientes e, portanto, não ocorre de imediato. Não aprendemos tudo o que estudamos de um dia para o outro e muito menos o que apenas presenciamos na sala de aula.

Como a consolidação ocorre durante o sono, os períodos de descanso ajudam a fixar o que foi aprendido e preparam o cérebro pra novas associações. Sabemos também que intervalos curtos de estudo são mais eficientes do que um grande mutirão ou esforço prolongado. Quando os períodos de estudo são menores, é mais fácil manter a atenção; além disso, a repetição é importante, como já vimos.”

Se o aluno dedicar 10 horas de análise a um tópico específico, por exemplo, é melhor distribuir esse mesmo número de horas por várias sessões de aprendizado mais curtas do que se debruçar no material em apenas uma ou duas sessões mais longas.

Essa constatação também foi feita pelo professor Paulo Carvalho, do Instituto de Interação Humano-Computador da Universidade Carnegie Mellon, fruto de grande pesquisa na área das ciências cognitivas, de aprendizagem e de computação.


No caso, o professor pode contribuir transmitindo o conteúdo de uma maneira mais contemplativa, inserindo os tópicos necessários mais de uma vez, mas o mais importante é que ele possa instigar projetos que ensinem os alunos a se autorregularem, a se tornarem mais autônomos e ativos nas suas aprendizagens.


Sobre o assunto, indicamos o texto O papel ativo do aluno na construção do aprendizado, no qual falamos sobre o processo chamado aprendizado autorregulado, relatado por Philippe Perrenoud como as “capacidades do sujeito para gerir ele próprio seus projetos, seus progressos, suas estratégias diante das tarefas e obstáculos.”


O ideal é que o professor auxilie seu aluno a ser um estudante ativo, que exerce controle sobre seu processo cognitivo e motivacional, de modo a captar, organizar e transformar as informações adquiridas ao longo do tempo. Ele deixa de ser o protagonista da educação e se torna o suporte/facilitador na criação de um individuo independente.


Aprender modifica o cérebro e ninguém é incapaz de fazê-lo. O estudante precisa é do estímulo correto para desejar instruir-se: aprender demanda esforço e comprometimento. Lembrando, no ensejo, que a atenção também é uma escolha e não uma característica inata.


Neurociência e futuro


Para que os ideais de ensino se tornem realidade é importante que os professores conheçam as pesquisas neurocientíficas e relacionem conhecimentos da neurociência e educação. Só assim há como construir um dia a dia na escola baseado no desenvolvimento cerebral do aluno; todos se beneficiarão dessas descobertas.


E ainda que a neurociência não entregue uma “receita de bolo”, de acordo com a pedagoga e especialista em neurociência Kátia Chedid, proporciona ao professor o conhecimento que o habilita a olhar individualmente um aluno e/ou turma e possa adaptar estratégias diferenciadas para atingir os objetivos.


Vale dizer que muito do que a neurociência sabe sobre o comportamento e sobre a aprendizagem ainda não foi testado no contexto da sala de aula.


Mas iniciativas importantes nesse sentido já existem, como a da Rede Nacional de Ciência para Educação (CpE) (cienciaparaeducacao.org), que se propõe a aproximar educadores, gestores e pesquisadores de diferentes áreas do conhecimento para discussão e realização de pesquisas científicas que possam promover melhores práticas e políticas educacionais baseadas em evidências, levando os conhecimentos adquiridos no laboratório para a realidade da escola.


De acordo com Leonor Bezerra Guerra, professora de neuroanatomia do curso de medicina da UFMG e coordenadora do projeto Neuroeduca, de divulgação de conhecimentos de neurociência para profissionais da educação, em artigo para a Revista Mundo Escolar, algumas atitudes já podem ser tomadas pelos educadores:


  1. Estimular os sentidos, o que ativa múltiplas redes neurais;

  2. Retomar o conteúdo, consolidando memórias;

  3. Orientar bons hábitos, como o de dormir bem para que o cérebro reorganize suas sinapses, eliminando aquelas em desuso e fortalecendo as que são importantes no cotidiano;

  4. Desafiar o conhecimento do aluno, despertando a curiosidade;

  5. Cuidar das emoções (suas, dos alunos e da turma como um todo);

  6. Motivar os alunos a superar os problemas;

  7. Planejar e organizar aulas com alternância de atividades (como perguntas que motivem discussão e vídeos);

  8. Criar um ambiente empático, de segurança e de afinidade entre pares;

  9. Tornar o aluno uma figura ativa durante as aulas;

  10. Aplicar provas para verificar se o método está funcionando ou não.

A professora Leonor Guerra pondera que no passado não se sabia como o cérebro funcionava e, ainda assim, as pessoas aprendiam e os educadores utilizavam estratégias pedagógicas eficientes. Os neurocientistas não são necessariamente bons professores e não possuem receitas infalíveis para a aprendizagem, que depende de outros fatores além do conhecimento sobre o funcionamento cerebral.


Mas não se pode desprezar uma ciência que pode tornar a aprendizagem mais eficiente. Estratégias pedagógicas fundamentadas pela psicologia cognitiva e pela neuropsicologia da aprendizagem podem contribuir e muito. O mundo de hoje não é o de ontem e as pessoas também não.





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