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O mapa dos fatores de vulnerabilidade de adolescentes brasileiros na internet

O tema da violência sexual online contra adolescentes motivou inúmeros estudos que pretendem compreender esse complexo fenômeno. É preciso desvendar fatores de risco, perfis comportamentais e pessoais, como base para o desenvolvimento de ações de proteção e formulação de políticas públicas eficazes.


Infelizmente, de acordo com a ChildFund, responsável pelo estudo que vamos reportar, o Brasil ainda está atrás na coleta e análise de dados quantitativos e qualitativos sobre a realidade dos crimes sexuais online contra crianças e adolescentes, bem como na geração de evidências para construir uma melhor compreensão das ameaças e danos da exploração e abuso sexual infantil online.


A pesquisa acadêmica também é escassa, o que faz com que sejam mais difíceis as decisões em política pública.


Diante desse cenário, o ChildFund Brasil realizou uma pesquisa nacional com quase 9 mil crianças e adolescentes em todo o país, com o fim de gerar insights de dados sobre as experiências online de crianças e adolescentes brasileiros, identificando os principais riscos e vulnerabilidades que enfrentam na Internet, e fortalecer a presença do Brasil no cenário global de pesquisas conduzidas por países desenvolvidos. A pesquisa contribui para a criação de evidências confiáveis e rigorosas e orienta políticas e tomadas de decisão no Brasil.


O perfil dos adolescentes


O perfil revelado pelo estudo indica que 75% dos adolescentes analisados têm entre 13 e 16 anos; 75% são pretos ou pardos; 93% cursam o ensino fundamental ou médio; 95% frequentam escolas públicas.


Eles passam, em média, 4 horas por dia na internet, sendo o celular o principal meio de acesso (93%). Apenas 2% acessam a internet pelo computador.


Cerca de 43% dos entrevistados relataram já ter sofrido algum tipo de violência sexual online sem interação de uma a três vezes ou mais.


O estudo considera a violência sem interação os casos em que o adolescente tem acesso a conteúdo de sexo ou nudez sem estar interagindo com um agressor. Nesse universo de 43%, 42% relataram que já sofreram violência sexual com interação de algum agressor, ocasião em que o agressor solicitou, por meio de ameaça ou não, conteúdos sexuais, que podem ser vídeos ou fotos de nudez e/ou atos sexuais. Convites para vídeo chamadas ou encontros presenciais também ocorreram.


A interação com estranhos suspeitos foi relatada por 41% dos adolescentes entrevistados, principalmente no uso de apps como Whatsapp e Telegram.  As interações online com estranhos ocorrem principalmente com homens, sendo que 14% residem na mesma cidade da vítima.


O convite de chamada de vídeo foi a forma mais frequente utilizada por estranhos suspeitos (22%). Em seguida, vem o recebimento de conteúdo sexual (16%) e o convite para encontros (15%).


Sentimento de insegurança online


A pesquisa percebeu quatro diferentes sentimentos de insegurança online segundo horários e tipos de ambientes virtuais frequentados:


  • Os adolescentes que se sentem seguros online todo o tempo, em qualquer aplicativo, costumam ficar 10% menos tempo online.

  • Os adolescentes que se sentem inseguros online, especialmente durante a noite e a madrugada no ambiente de jogos online.

  • Os adolescentes que se sentem inseguros online durante a noite e madrugada, especialmente em redes sociais e;

  • Os adolescentes que se sentem inseguros online durante todo o tempo, especialmente em aplicativos de mensagens.


O sentimento de segurança tem relação direta com a interação que possuem com os pais/mães e com o tipo de orientação que já receberam sobre os perigos da internet.


Proteção online


Os fatores determinantes da violência sexual com interação online, que separam vítima de não vítima, são, notadamente, o número e o tipo de aplicativos acessados, a idade, o tempo online diário, o gênero e o perfil de proteção.


De acordo com os adolescentes entrevistados, o fator que mais gera a violência online com interação é a quantidade e o tipo dos apps que acessam. E são por meio de aplicativos, principalmente de jogos, que os criminosos mais se aproximam das vítimas.


Outro fator importante é a idade das vítimas: os criminosos tendem a procurar mais por meninas pré-adolescentes e adolescentes na faixa dos 10 aos 14 anos.


A quantidade de horas online e a quantidade de apps utilizados também aumenta com a idade dos adolescentes. E, então, aumentam-se as chances de o adolescente ser vítima de violência sexual com interação.


Conclusões


O estudo revela que adolescentes que se sentem inseguros online tendem a passar mais tempo em plataformas digitais, com redes sociais, aplicativos de mensagens e ambientes de jogos servindo como ambientes online-chave para a violência sexual online.


Há uma relação inversa entre os níveis de proteção e a ocorrência de violência sexual online.


Adolescentes bem protegidos se sentem mais seguros online e se mostram menos expostos à violência sexual online.


Além disso, a combinação dos diferentes mecanismos de proteção impacta diretamente a ocorrência da violência sexual online.


O estudo também consegue verificar perfis da incidência de violência sexual online em quatro níveis: nenhum, baixa, muito alta e extremamente alta.


O perfil de incidência de violência sexual online muito alta tem como característica principal a ocorrência de violência sexual com interação online na forma de solicitação de videochamadas e conteúdo explícito, que pode ser evitada, de certa forma, com a redução da exposição a certas plataformas.


Outras descobertas com direcionador de políticas públicas eficazes são:


  • a insegurança online está associada a um maior risco de violência sexual com interação online, mas o tempo online influencia mais intensamente essa chance;

  • adolescentes de 17 e 18 anos que usam mais de um aplicativo têm 8,09 vezes mais chances de serem vítima de violência sexual com interação online que a média;

  • as chances de violência sexual com interação online entre adolescentes de 14 a 16 anos desprotegidos ou mal protegidos é semelhante à de adolescentes de 17 a 18 anos, sendo essas chances 1,13 vezes menores entre adolescentes de 14 a 16 anos bem protegidos e protegidos.


Os resultados, infelizmente, revelam uma tendência preocupante, já que mais da metade dos adolescentes relataram algum tipo de violência sexual online e mostram que a violência está associada a fatores demográficos e comportamentais específicos, como idade, gênero, tempo gasto online, aplicativos acessados e mecanismos de proteção (por exemplo, controle de acesso e cursos de navegação segura).


Os dados não apenas permitem o retrato da violência sexual online, mas também o direcionamento de políticas públicas e o aumento de sua eficácia no enfrentamento do problema no Brasil.


E, de acordo com os pesquisadores, muitas questões importantes ainda estão sem respostas, pelo que deixam o alerta para a necessidade de mais estudos como este.


O ChildFund é uma organização internacional de desenvolvimento, com foco na proteção de crianças e adolescentes; há mais de 80 anos trabalha para que crianças, adolescentes e jovens de mais de 70 países, em situação de privação, exclusão e vulnerabilidade, alcancem seu pleno potencial.


Acesse a pesquisa na íntegra, veja os dados em sua completude, e conheça a metodologia utilizada.

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