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Celulares proibidos nas escolas: pesquisas reforçam tese de que smartphones transformaram a atenção dos estudantes

Atualizado: 16 de fev.

A notícia de que os estudantes das escolas da rede municipal do Rio de Janeiro não poderão utilizar o celular na sala de aula reacendeu o debate sobre a regulamentação do uso dos aparelhos eletrônicos nas escolas.


De acordo com o Decreto 53.019 de 2023, da cidade do Rio de Janeiro, os celulares e demais dispositivos eletrônicos deverão ser guardados na mochila ou bolsa do próprio aluno, desligado ou ligado em modo silencioso e sem vibração. Os aparelhos não poderão ser usados mesmo quando houver atividades pedagógicas fora da sala de aula, durante trabalhos individuais ou em grupo.  


Os equipamentos, contudo, poderão ser usados para fins educacionais, quando autorizados pelos professores para pesquisas, leituras ou acesso ao material da Prefeitura ou outro conteúdo e serviço educativo. Também está autorizado o uso dos celulares para os alunos com deficiência ou com problemas de saúde que necessitam destes dispositivos para monitoramento ou algum tipo de auxílio.  


Em caso de descumprimento, os alunos poderão ser advertidos e a equipe gestora da unidade escolar acionada.


Leia:


 

Os smartphones mudaram a atenção dos alunos, ainda que desligados

  

A premissa básica do relatório da Unesco que recomenda a proibição de celulares dentro de sala de aula é que a tecnologia deve servir às pessoas e colocar os estudantes e professores no centro; deve também  lembrar à sociedade que grande parte da tecnologia não foi elaborada para a educação.


Desta forma, para sua utilização, sua adequação e seu valor precisam ser comprovados em relação a uma visão da educação centrada no ser humano. Isto antes de sua inserção na parte prática da educação. O que ainda não aconteceu.


Foi isto que a professora de Gestão e diretora do programa de Comunicação, Cultura e Tecnologia da Universidade de Georgetown, Jeanine Turner, descobriu na sua investigação sobre a forma como a tecnologia moldou as relações sociais.


O seu argumento, bem explicitado no livro "Being Present: Commanding Attention at Work (and at Home) by Managing Your Social Presence", é de que os nossos dispositivos ligados à Internet alteraram a forma como nos relacionamos com os outros, mesmo quando os dispositivos são temporariamente retirados.


Para a pesquisadora, devido à natureza assíncrona das mensagens, em que podemos ter emails e mensagens de texto se acumulando e aos quais teremos de responder posteriormente,  não estamos mais totalmente presentes numa conversa.  Estamos sempre pensando em uma outra interlocução em que ‘deveríamos’ estar.


E a deliberação pelo que fazer sequer é individual, pois posso decidir que quero ou não um diálogo agora, mas talvez o meu chefe, um colega de trabalho ou um familiar precise falar comigo e deseje que eu esteja disponível naquele momento.


No caso da sala de aula, os professores sempre tiveram de convencer os alunos a prestar atenção, mas agora é diferente. Qualquer professor, qualquer apresentador numa situação empresarial, se quiser que as pessoas lhe prestem atenção, terá de saber que compete pela atenção da pessoa com o telefone celular e que este aparelho vai chamar a atenção para si durante todo o transcurso de tempo.


O aluno escolhe se quer prestar atenção no professor ou no dispositivo. É sempre uma competição e a determinação está nas mãos de alguém ainda imaturo.


Leia:



Multitarefas


No livro citado a autora também se refere ao fato de que as pessoas imaginam que podem ser multitarefas em reuniões, por exemplo, mas muitas vezes perdem informação - especialmente quando ela lhe parece contraditória ou quando a pessoa que a emite é alguém de quem discordam.


A pesquisadora realizou um estudo em que os participantes ouviam uma história e, ao mesmo tempo, geriam uma atividade online, mais especificamente cuidavam do serviço de e-mail. A orientação era de que prestassem atenção a ambos os acontecimentos.


Mais tarde, questionados sobre uma parte específica do relato contada no exato momento em que a caixa de entrada do serviço de correio eletrônico alertava, eles não respondiam à pergunta, concluindo-se que mesmo que não saibamos o que é mais importante, já estamos acostumados (ou temos a tendência) a fazer uma seleção.


Para a pesquisadora Jeanine Turner, a universidade e a sala de aula, como espaços de aprendizagem - e aprender é difícil - são espaços onde podemos ter acesso a informações que nos deixa desconfortáveis ou estranhos, mas de forma segura, para que  possamos compreender melhor o ponto de vista de outra pessoa.


Não podemos ter ambientes escolares onde ninguém fala e ninguém se sente incluído. Se isto acontecer nas nossas universidades, se isto acontecer nas nossas escolas do ensino fundamental e médio, ou seja, nos ambientes educativos que são supostamente espaços de aprendizagem, então falhamos.


O problema do vício em tecnologia


Não é difícil perceber o desespero dos estudantes – e de muitos pais, inclusive – quando há a proibição do uso dos telefones dentro de sala de aula. Para muitos eles se tornaram uma necessidade.  


O que muitas pessoas ainda não sabem é que a dependência de smartphones assemelha-se a outras dependências comportamentais,  associada ao uso intenso de redes sociais e ao número de mensagens de texto enviadas.

 

Até o momento as pesquisas apontam que indivíduos mais extrovertidos parecem estar mais propensos a este tipo de vício.

 

Mas ela também está associada a altos níveis de tédio e baixa autoestima, sentimentos de solidão, busca por aprovação, níveis elevados de ansiedade, depressão e alexitimia, termo empregado no diagnóstico clínico de pessoas com acentuada dificuldade ou incapacidade para expressar emoções.

 

De qualquer forma, como já podemos imaginar, este é um fenômeno recente e  ainda não há consenso sobre os melhores critérios diagnósticos a serem utilizados. O que sabemos é que os transtornos relacionados com dependência de tecnologia atingem cerca de 6% da população;  a sociedade como um todo precisa conhecer estas questões, sendo que as instituições de ensino são, muitas vezes, a principal (ou única) fonte de informações e orientações para os pais sobre como estão seus filhos e sobre o que tem acontecido no universo dos jovens.

 

E as escolas particulares?


Até agora as proibições gerais, por meio de lei, quanto ao uso de celulares em sala de aula ou nas dependências da escola existentes no país foram feitas em âmbito público.


Porém, caso a escola particular decida por inserir a regra dentro de seu estabelecimento, entendemos que seja imperioso fazer a adequação das normas da escola, inclusive para prever as sanções em caso de descumprimento.


Para isto existe o regimento escolar, que é uma espécie de constituição da escola e no qual devem constar as normas gerais, que regularão as práticas escolares pedagógicas, direitos e deveres dos membros da comunidade escolar e também as sanções disciplinares a serem aplicadas quando o aluno eventualmente cometer um ato de indisciplina ou ato infracional. Sem esta pré-definição torna-se conturbada a resolução das questões que surgem quando os estudantes porventura descumprirem as determinações.


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