Precisamos falar sobre o vício em tecnologia (também nas instituições de ensino)

Em artigo publicado na Revista Brasileira de Psicoterapia, os médicos psiquiatras Felipe Picon, Rafael Karam, Vitor Breda, André Silveira, Daniel Spritzer e a Psicóloga especialista em Psicoterapia de Orientação Analítica e em Psicoterapia de Infância e Adolescência, Aline Restano, analisam os subtipos de vício em tecnologia e fazem um alerta: precisamos falar sobre o assunto, ou seja, sobre a dependência de jogos eletrônicos, de redes sociais, de pornografia e dos smartphones.


O transtorno é caracterizado pela falta de habilidade de controlar o uso da tecnologia – em qualquer de suas formas - quando esse uso já causa impacto negativo nas principais áreas da vida do indivíduo, ou seja, quando impacte relacionamentos interpessoais, saúde física, desempenho acadêmico ou desempenho no trabalho. É um fenômeno observado globalmente e, de acordo com o estudo publicado, normalmente associado a outros transtornos psiquiátricos.


Vale ressaltar que o assunto é de grande importância para as instituições de ensino: afinal, existe um protagonismo da escola/espaços de educação na vida de crianças e adolescentes e estas se tornam um ambiente privilegiado para a promoção da saúde mental, inclusive com a disseminação de informações para toda a comunidade escolar sobre o uso e/ou abuso da tecnologia.


As instituições de ensino, portanto, não podem fechar os olhos para esta realidade. É preciso conhecer, debater, trazer a pauta para as famílias e, em conjunto, enfrentar mais este desafio.


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Pois bem, da mesma forma que ocorre no campo dos transtornos por uso de substâncias, aqui também se faz necessário compreender os diferentes subtipos de vício. Só então os profissionais de saúde podem fornecer as melhores alternativas de tratamento.


O texto do artigo mencionado fala em:


  • Dependência de jogos eletrônicos;

  • Dependência de redes sociais;

  • Dependência de pornografia on-line;

  • Dependência de smartphones;


Dependência de jogos eletrônicos


Já é bem estabelecido que o uso de jogos eletrônicos pode, para algumas pessoas, acarretar graves prejuízos na saúde, tanto física quanto mental, no desempenho acadêmico e nos relacionamentos afetivos.


De acordo com o texto em referência, intitulado “Precisamos falar sobre tecnologia: caracterizando clinicamente os subtipos de dependência de tecnologia”, ainda não existe estudo de base populacional no Brasil para que possamos determinar com maior precisão o impacto desse transtorno na nossa população; o que se sabe é que é possível “identificar a presença concomitante de outro transtorno mental, que pode ter uma relação de causa e efeito com a dependência de jogos e uma tendência a se reforçarem mutuamente.” Adolescentes do sexo masculino são um de seus principais grupos de risco.


As características dos jogos eletrônicos atuais também são bastante preocupantes: os jogos se desenvolvem nos chamados “ambientes persistentes”, ou seja, o jogador que não está online se coloca numa situação de prejuízo perante os demais, fazendo com que ele “necessite” estar dedicado ao jogo muitas horas por dia. Sua habilidade é menos importante do que as horas em que passa conectado.


A complexidade dos jogos também coloca os usuários em uma situação de imersão e envolvimento diferente dos jogos do passado.


O Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais (DSM-5) já inclui a categoria “Internet Gaming Disorder”, ou seja, o “Transtorno do Jogo pela Internet” como uma condição que merece mais estudos.


Quanto à nova Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde, a CID-11, há previsão para entrar em vigor somente em 2022. Anunciada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), a décima primeira revisão vai incluir o distúrbio de games como um problema de saúde mental.


Com esta revisão, o vício em jogos eletrônicos entrará para a lista de distúrbios de saúde mental sob a nomenclatura “Distúrbio de games” (Gaming disorder). A classificação por parte da OMS pretende ajudar governos, agências de saúde, escolas e pais a identificar riscos e promover tratamentos a esse distúrbio.


Dependência de redes sociais


As plataformas das redes sociais, muitas vezes dedicadas apenas ao público adulto, vêm sendo também amplamente difundidas entre crianças e adolescente. De acordo com o referido texto, meninas estão em maior número nas redes do que os meninos. Elas se utilizam dessas plataformas para se comunicar e para entretenimento e, em geral, os meninos as utilizam como uma maneira de compensar inabilidades sociais. Elas também têm maior tendência a usá-las de forma problemática.


Para os autores citados, ainda não existe uma formalização de critérios diagnósticos para a dependência de redes sociais como já existe em relação a dependência de games, mas o abuso desse subtipo de dependência merece muita atenção, principalmente dos que trabalham com jovens, pois na adolescência seu uso aumenta sobremaneira.


Para o Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira - IMIP, uma série de sintomas da dependência das redes sociais já podem ser observados, como: nervosismo quando não se tem acesso à Internet, a rede social não funciona ou está mais lenta do que o habitual; consultar as redes sociais assim que se levanta e antes de se deitar; sentir-se inquieto se não tiver o smartphone ao alcance da mão; caminhar utilizando as redes sociais; sentir-se mal se não receber likes (curtidas), retweets ou visualizações; usar as redes sociais enquanto dirige; sentir a necessidade de compartilhar qualquer coisa da vida diária; achar que a vida dos outros é melhor do que a sua, em função do que vê nas redes e fazer check-in para cada local ao qual vai.


O grande problema das redes sociais é que elas são formuladas para que necessitemos de um constante retorno a elas. O número de curtidas no Instagram ou no Facebook, as notificações no WhatsApp, os comentários e mensagens fazem com que o usuário queria conferir com frequência seus perfis, além do que, quando as postagem repercutem com sucesso, geram picos de bem-estar cerebrais comparáveis aos que ocorrem com outros desencadeadores de prazer.


O inconveniente é que o mecanismo inverso também ocorre e se a recompensa não vem pode ocorrer um vazio intenso, “semelhante ao do dependente químico quando não está sob efeito da substância ou quando é privado do acesso a ela”.


A gratificação também surge por se mostrar parte de um grupo específico e em compartilhar as atividades sociais que se está participando em tempo real. No caso do adolescente, há uma constante busca por aceitação e a negativa dessa aceitação – quando acontece - pode ser terrivelmente potencializada nas redes.


Dependência de pornografia on-line


O uso excessivo de pornografia on-line é classificado no DSM-5 como um dos subtipos de Transtorno de Hipersexualidade e esse comportamento envolve ver, baixar, trocar material de conteúdo pornográfico ou se envolver em salas de bate-papo com temas de fantasias sexuais, causando significativo prejuízo interpessoal.


Os adolescentes são afetados porque geralmente aceitam definições de sexo, amor e relacionamentos vindos da pornografia e, posteriormente, são associados com maior risco de práticas sexuais inseguras, maior número de parceiros sexuais e precocidade da primeira relação sexual, menor satisfação sexual e menor satisfação no relacionamento como um todo.


Aqui, tal qual acontece com as demais dependências, há frequentemente comorbidades associadas, que devem ser tratadas concomitantemente.


Dependência de smartphones


Refere-se à ansiedade, ao desconforto ou à irritabilidade desencadeados em uma pessoa quando encontra-se longe de seu celular. Assemelha-se a outras dependências comportamentais e ainda se associa a um outro risco significativo: de envolvimento em acidentes, desde quedas até acidentes automobilísticos.


O risco de dependência de telefones celulares está, claro, associado ao uso intenso de redes sociais e o número de mensagens de texto enviadas e até o momento as pesquisas apontam que indivíduos mais extrovertidos parecem estar mais propensos a este tipo de vício.


Não obstante, também está associado a altos níveis de tédio e baixa autoestima, sentimentos de solidão, busca por aprovação, níveis elevados de ansiedade, depressão e alexitimia, termo empregado no diagnóstico clínico de pessoas com acentuada dificuldade ou incapacidade para expressar emoções.


Para finalizar, este é um fenômeno recente e ainda não há consenso sobre os melhores critérios diagnósticos a serem utilizados.


Espaço de reflexão


De acordo com os pesquisadores citados, os transtornos relacionados com dependência de tecnologia atingem cerca de 6% da população; a sociedade como um todo precisa conhecer estas questões.


E as instituições de ensino são, muitas vezes, a principal (ou única) fonte de informações e orientações para os pais sobre como estão seus filhos e sobre o que tem acontecido no universo dos jovens. Elas podem ser grandes aliadas das famílias, auxiliando na conscientização e prevenção dos problemas, além, claro, de contribuir quando de um eventual diagnóstico.


Muitas vezes é o educador que detecta situações nas quais o aluno apresenta prejuízo no rendimento da aprendizagem em função de um uso intenso do computador, celular ou jogos eletrônicos.


E para que o professor também seja este agente, é importante que suas preocupações e observações sobre o comportamento dos alunos sejam discutidas nas demais esferas da escola e com os pais. A instituição de ensino como um espaço de reflexão o permite.


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