Maturidade Digital das IES Brasileiras
- Ana Luiza Santos e Edgar Jacobs

- há 6 dias
- 6 min de leitura
A Pesquisa UDIgital Brasil 2024 foi publicada em dezembro de 2025 e apresenta um panorama da maturidade digital das Instituições de Ensino Superior brasileiras, evidenciando tendências, desafios e oportunidades no contexto da transformação digital. Conduzido com o apoio da MetaRed TIC Brasil e de especialistas, o estudo analisa como as IES vêm respondendo às demandas tecnológicas e estratégicas da era digital. A pesquisa avalia dimensões essenciais, como Governança de TI, Cultura Digital, Segurança da Informação e Investimentos em Tecnologia, revelando avanços relevantes, mas também lacunas estruturais no processo de digitalização. Seu principal propósito é estimular o diálogo e a tomada de decisões estratégicas, fortalecendo o alinhamento entre tecnologia, gestão acadêmica e objetivos institucionais.
Principais achados e implicações estratégicas
A transformação digital deixou de ser um projeto periférico para se consolidar como um tema central da estratégia institucional das Instituições de Ensino Superior (IES). O Relatório UDigital Brasil 2024, conduzido pela MetaRed TIC Brasil, oferece um diagnóstico amplo e consistente sobre o estágio de maturidade digital das IES brasileiras, revelando avanços relevantes, mas também fragilidades estruturais que ainda limitam a consolidação de uma universidade verdadeiramente digital.
A pesquisa avalia a maturidade digital a partir de cinco dimensões estratégicas: Universidade Digital, Governança e TI, Cultura Digital, Segurança da Informação e Investimento em TI e permite compreender como diferentes tipos e portes de instituições estão respondendo às exigências tecnológicas, regulatórias e pedagógicas do cenário contemporâneo.
De forma geral, o estudo evidencia que as IES brasileiras avançaram no discurso e na adoção de soluções digitais, especialmente após o período da pandemia, mas ainda enfrentam dificuldades para transformar tecnologia em valor estratégico sustentável.
Universidade Digital: maturidade ainda é desigual
Na dimensão Universidade Digital, observa-se que a maioria das IES já dispõe de uma infraestrutura mínima de tecnologia, especialmente para suportar atividades acadêmicas e administrativas básicas. Cerca de 80% das salas de aula possuem equipamentos essenciais, como computadores, projetores e acesso à internet, e 66% das instituições contam com aplicativos móveis para serviços institucionais.
As tecnologias mais consolidadas são aquelas diretamente ligadas ao ensino remoto e híbrido, ambientes virtuais de aprendizagem, ferramentas em nuvem, plataformas colaborativas e soluções de segurança cibernética. Esses recursos apresentam níveis de adoção entre 64% e 76%, evidenciando que a digitalização avançou sobretudo como resposta operacional às restrições impostas pela pandemia.
Por outro lado, tecnologias emergentes com maior potencial transformador, como inteligência artificial aplicada à educação, blockchain, BIM ou robótica, ainda possuem adoção residual, variando entre 6% e 15%. Isso indica que, para a maioria das IES, a transformação digital permanece concentrada no nível operacional, e não estratégico.
Outro ponto crítico é a baixa maturidade dos processos de TI. Apenas 38% das instituições possuem processos aprovados ou certificados, e a prática de auditoria ainda é exceção. Esse dado revela que, embora a digitalização esteja presente no cotidiano, ela nem sempre é sustentada por métodos, padrões e controles adequados.
Governança e TI: liderança cresce, mas falta estrutura decisória
A dimensão Governança e TI apresenta uma das evoluções mais consistentes do relatório. Em 2024, 75% das IES já contam com executivos dedicados à TI (CIO ou CTO), um crescimento significativo em relação a 2022. Também aumentou o percentual de instituições que definem formalmente funções ligadas à estratégia, gestão e governança de TI.
Esse avanço sinaliza maior reconhecimento da tecnologia como ativo estratégico. No entanto, a pesquisa evidencia um gargalo relevante: apenas 38% das IES possuem comitês estratégicos de TI, responsáveis por integrar tecnologia e tomada de decisão institucional. Sem esse espaço formal de governança, a TI tende a operar de forma reativa, atendendo demandas pontuais, e não como indutora de inovação.
A fragilidade também aparece na gestão por indicadores. Apenas 18% das instituições avaliam e publicam regularmente os resultados dos projetos de TI, enquanto uma parcela expressiva não realiza qualquer avaliação estruturada. Além disso, somente 30% das IES possuem painéis de indicadores-chave (KPIs) claramente definidos para a alta gestão.
Em termos estratégicos, isso significa que muitas IES investem em tecnologia sem medir impacto, dificultando a priorização de projetos, a transparência e a correção de rumos.
Cultura Digital: avanços conceituais, lacunas formativas
A Cultura Digital segue como um dos maiores desafios estruturais das IES brasileiras. Em 2024, 49% das instituições declararam possuir uma cultura digital estabelecida, um avanço em relação a 2022, mas ainda insuficiente para sustentar processos de inovação contínua.
O relatório mostra uma correlação direta entre cultura digital, formação adequada e gestão da TI. Instituições que formalizaram sua cultura digital tendem a apresentar melhores indicadores de uso da tecnologia, maior engajamento da comunidade acadêmica e políticas mais consistentes de governança.
Entretanto, 48% das IES ainda não possuem formação digital adequada para professores, técnicos e estudantes. Esse dado é estratégico: sem capacitação, a tecnologia vira ferramenta subutilizada ou fonte de resistência interna, comprometendo seu potencial transformador.
Outro avanço relevante está nas iniciativas de dados abertos. Em 2024, 35% das IES já possuem ou estão desenvolvendo ações nessa área, contra apenas 31% em 2022. Apesar do crescimento, a maioria das instituições ainda não explora dados como ativo estratégico para transparência, inovação e tomada de decisão baseada em evidências.
Segurança da Informação: investimento ainda limita
A dimensão Segurança da Informação revela uma evolução importante na conscientização institucional, mas também expõe vulnerabilidades relevantes. Em 2024, 65% das IES já possuem políticas de segurança da informação documentadas, um crescimento expressivo em relação a 2023.
No entanto, esse avanço é desigual. Instituições de grande porte apresentam níveis muito superiores de maturidade, enquanto IES pequenas ainda operam com baixa formalização, tanto em políticas quanto em planos de contingência.
Apenas 40% das instituições possuem planos de continuidade e contingência de TI aprovados, e somente 44% contam com sistemas estruturados de resposta a incidentes de segurança. Isso significa que mais da metade das IES permanece vulnerável a falhas operacionais, ataques cibernéticos e indisponibilidade de serviços críticos.
O orçamento aparece como fator limitante central. 50% das IES investem menos de R$ 1 milhão em segurança da informação, o que restringe a adoção de tecnologias avançadas e programas robustos de capacitação. Ainda que 68% das instituições afirmem conhecer o orçamento destinado à segurança, o volume de recursos segue aquém das necessidades crescentes.
Investimento em TI: prioridade operacional, déficit estratégico
Na dimensão Investimento em TI, o relatório aponta um cenário ambíguo. Por um lado, 47% das IES consideram seus investimentos adequados; por outro, 53% reconhecem um déficit tecnológico que compromete a evolução digital.
A distribuição orçamentária revela uma clara priorização de hardware, software, serviços de TI e equipe técnica, enquanto treinamento do pessoal de TI e formação em competências digitais figuram entre as menores prioridades. Apenas 32% das IES possuem planos estruturados de treinamento para suas equipes de TI, e somente 26% contam com planos de formação digital para a comunidade acadêmica.
O dado médio é revelador: o orçamento dedicado à TI representa cerca de 12% do orçamento total das IES, com uma média de 14 técnicos de TI por instituição e aproximadamente R$ 76,9 mil anuais por técnico em capacitação. Esses números indicam esforço, mas ainda insuficiente para sustentar uma transformação digital contínua e estratégica, especialmente nas instituições de menor porte.
Considerações finais
O UDigital Brasil 2024 mostra que as Instituições de Ensino Superior brasileiras já estão digitalizadas, mas ainda não plenamente maduras do ponto de vista estratégico. A tecnologia está presente, mas nem sempre integrada à governança, à cultura organizacional e à tomada de decisão.
O principal desafio não é mais adotar tecnologia, mas governá-la, qualificá-la e transformá-la em valor institucional. Para isso, o relatório aponta caminhos claros:
fortalecer estruturas de governança e comitês estratégicos de TI;
investir de forma consistente em formação digital de professores, técnicos e estudantes;
reduzir desigualdades entre instituições por meio de políticas diferenciadas de apoio e investimento;
tratar segurança da informação como eixo estratégico, e não apenas técnico;
avançar da digitalização operacional para a transformação digital orientada por dados, inovação e estratégia.
O futuro digital das IES brasileiras dependerá menos de novas ferramentas e mais da capacidade de liderar, planejar, capacitar e decidir estrategicamente sobre tecnologia. O relatório UDigital 2024 se consolida, assim, como um instrumento essencial de diagnóstico e orientação para gestores que desejam transformar tecnologia em vantagem institucional sustentável. Acesse-o na íntegra.

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