O papel dos hospitais universitários no SUS
- Ana Luiza Santos e Edgar Jacobs

- há 1 dia
- 5 min de leitura
A criação do Sistema Único de Saúde (SUS), ocorrida quando da promulgação da Constituição Federal de 1988, marcou uma mudança profunda na forma como a saúde passou a ser tratada no Brasil. Ao estabelecer que a saúde é um direito de todos e dever do Estado, o país assumiu o compromisso de garantir atendimento universal. Mas transformar esse princípio em realidade nunca foi (e nunca será) simples. Para que o SUS funcione como se espera, é preciso uma estrutura capaz de dar conta de atendimentos básicos até procedimentos complexos. E é justamente nesse ponto que os hospitais universitários se tornam indispensáveis.
Essas instituições ocupam um lugar único dentro do sistema, porque não se limitam ao atendimento. Elas reúnem, ao mesmo tempo, três funções: a assistência, o ensino e a pesquisa. Na prática, os hospitais universitários não são apenas hospitais; são também espaços de formação profissional e produção de conhecimento. É uma combinação que garante que o SUS seja amplo em acesso e em qualidade.
No campo da assistência, os hospitais universitários são referência para casos mais complexos. Eles concentram tecnologia avançada, equipes especializadas e capacidade de lidar com situações que outros níveis da rede não conseguem resolver. Em muitos casos, são a última alternativa para o paciente dentro do sistema público. Sem esse suporte, a ideia de integralidade do SUS ficaria comprometida, já que não bastaria garantir acesso inicial sem oferecer solução para quadros mais graves.
Ao mesmo tempo, é nesses hospitais que se forma grande parte dos profissionais da saúde. Estudantes de medicina, enfermagem, farmácia e outras áreas passam por esses espaços e entram em contato direto com a realidade do sistema público. E isso faz diferença. O estudante aprende a técnica e entende o contexto social do paciente, a dinâmica do SUS e a importância do trabalho em equipe. Um tipo de formação que contribui para profissionais mais preparados e, principalmente, mais conscientes do papel que desempenham.
A pesquisa é outro ponto que não pode ser ignorado. Muitos avanços na área da saúde no Brasil nascem dentro dos hospitais universitários. Protocolos clínicos, novas formas de tratamento e até respostas a emergências sanitárias são desenvolvidos a partir da prática observada nesses locais. Isso fortalece o SUS e reduz a dependência de soluções externas, algo especialmente importante em um sistema público de grande escala como o brasileiro.
Os serviços de saúde dos hospitais universitários e de ensino integram-se ao SUS mediante convênio, preservada a sua autonomia administrativa em relação ao patrimônio, aos recursos humanos e financeiros, ensino, pesquisa e extensão nos limites conferidos pelas instituições a que estiverem vinculados.
A título de curiosidade, nessas instituições foram conduzidos estudos relevantes envolvendo terapias celulares e transplantes, com destaque para experiências no Hospital das Clínicas da USP, além da consolidação de protocolos de tratamento para HIV/AIDS que contribuíram para a referência internacional do Brasil na área. Também se destacam as pesquisas em cardiologia desenvolvidas no Instituto do Coração (InCor), que ajudaram a aprimorar o manejo de doenças cardiovasculares, bem como estudos realizados durante a pandemia de COVID-19, fundamentais para compreender a evolução clínica da doença e orientar condutas médicas. Ademais, investigações em neonatologia possibilitaram avanços no cuidado a recém-nascidos prematuros, enquanto pesquisas em saúde mental contribuíram para o fortalecimento de modelos de atenção psicossocial no âmbito do SUS.
Sim, existem problemas
Apesar de todas as benesses do nosso sistema, não dá para ignorar os problemas. Os hospitais universitários enfrentam dificuldades antigas, que continuam impactando seu funcionamento. Como aponta Ivan Felizardo Contrera Toro, no artigo “O papel dos hospitais universitários no SUS: avanços e retrocessos” (Serviço Social & Saúde, Campinas, v. 4, n. 4, 2005), essas instituições convivem há décadas com desafios relacionados ao financiamento, à gestão, à relação com a academia e à própria inserção no SUS. Segundo o autor, existe um certo paradoxo: são fundamentais para o sistema, mas ao mesmo tempo operam sob constante pressão.
Um exemplo claro disso é a sobrecarga. Com o SUS ampliando o acesso, muitos pacientes passaram a procurar diretamente os hospitais universitários, inclusive para problemas que poderiam ser resolvidos na atenção básica. Na prática, esse comportamento gera um uso inadequado de recursos de alta complexidade. Mas é importante deixar claro: é uma questão que não nasce dentro dos hospitais universitários. Ele reflete falhas na organização da rede como um todo. Quando a base não funciona bem, o topo acaba sendo pressionado.
A questão do financiamento também pesa bastante, como salienta Toro. Manter estruturas complexas, com tecnologia avançada e equipes qualificadas, custa caro; e o financiamento público nem sempre acompanha essa demanda. O pesquisador chama atenção, inclusive, para o acúmulo de dívidas e para a dificuldade de manter investimentos contínuos. Sem recursos adequados, fica difícil modernizar equipamentos, ampliar serviços ou manter o padrão de qualidade esperado.
É bom fazer um adendo que o cenário descrito por Toro há duas décadas ganhou contornos diferentes (e também complexos) nos últimos anos. A consolidação da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh) trouxe uma tentativa de profissionalização da gestão e o estabelecimento de metas de desempenho, buscando mitigar os problemas históricos de endividamento. No contexto atual de 2026, com o fortalecimento de programas de investimento como o PRHOSUS, percebe-se uma tentativa de modernizar a infraestrutura tecnológica desses hospitais. O desafio é a sobrevivência financeira, a busca por produtividade hospitalar, além da manutenção de um tempo necessário para a reflexão acadêmica e a pesquisa científica, garantindo que os Hospitais Universitários continue sendo centros de excelência e inovação, e não só prestadores de serviços em massa.
Outro ponto sensível é a gestão. Durante muito tempo, muitos hospitais universitários foram administrados com base em critérios mais acadêmicos do que técnicos. Isso trouxe dificuldades para a organização interna e para a eficiência dos serviços. Nos últimos anos, iniciativas como a padronização e reorganização dos processos de trabalho, têm buscado corrigir esse problema. São avanços importantes, mas ainda não suficientes para resolver todas as fragilidades.
Mesmo assim, seria um erro enxergar os hospitais universitários como um problema. Eles são uma das peças mais importantes da solução. Enfraquecer essas instituições significaria comprometer o atendimento de alta complexidade, a formação de profissionais e o desenvolvimento científico na área da saúde.
Por isso, o caminho mais coerente não é reduzir seu papel, mas fortalecê-lo. Isso passa por garantir financiamento adequado, melhorar a gestão, integrar melhor esses hospitais à rede do SUS e valorizar sua função acadêmica.
No fim das contas, os hospitais universitários representam muito mais do que unidades de saúde. Eles são um ponto de encontro entre ciência, formação profissional e atendimento à população. Mesmo com todos os desafios apontados, sua existência continua sendo essencial para que o SUS funcione de forma completa.
Defender os hospitais universitários, portanto, não é apenas defender uma instituição, mas o próprio projeto de um sistema de saúde público, universal e de qualidade. Sem eles, o SUS perde importância. Com eles fortalecidos, ganha consistência, capacidade técnica e melhores condições de atender a população de forma digna.

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