• Ana Luiza Santos e Edgar Jacobs

Há um legado da pandemia para a educação?

Não há dúvidas de que, com a passagem dos meses, quem teve a possibilidade de participar das aulas virtuais já mudou seu ponto de vista sobre a efetividade do processo.

Ainda não é fácil e aqui não estamos tratando da dinâmica complicada pela qual milhares de famílias estão passando ao ter que lidar com isolamento, crianças em casa 100% do tempo, home office e todas as demais tarefas cotidianas que antes da pandemia poderiam ser compartilhadas e/ou delegadas.

Sabe-se que há um grande aperto emocional neste momento; são seis meses de vida modificada. Mas no início tudo soou muito mais assustador e não poderíamos imaginar como seria o processo educativo a distância, verdadeiramente imposto e de forma abrupta.

Os problemas foram vários, inclusive na adaptação dos equipamentos que seriam utilizados pelos pais e/ou responsáveis, muitos também compelidos ao trabalho não presencial.

Sem o contato físico, tanto professores quanto alunos se sentiram isolados e solitários. Estamos tratando de pessoas – em sua maioria, pelo menos – que não tinham tido nenhum contato com aulas virtuais. Porque quando a plataforma virtual é escolhida (e não imposta) sabe-se em alguma medida o que está por vir e o que o aluno vai receber. No caso das aulas presenciais subitamente encaminhadas para o online a situação foi bem diferente.

Enquanto a situação ainda é um desastre para muitos, incluindo aqueles que não possuem os dispositivos eletrônicos necessários ou não podem acessar um serviço confiável de internet, muitas escolas, professores e pais já estão melhor preparados neste momento do que em meados de março, quando as aulas foram suspensas.

Continua difícil mesmo nas melhores circunstâncias, mas já se pode perceber que vários desafios pessoais foram enfrentados, principalmente dentre os adolescentes e jovens estudantes universitários.

Ensino não presencial e emergencial não é EAD

É bom lembrar que o ensino remoto praticado atualmente, durante a pandemia, assemelha-se ao EAD apenas no fato de que é uma educação mediada pela tecnologia. Os princípios seguem os mesmos da educação presencial.

A educação a distância pressupõe o apoio de tutores de forma atemporal, carga horária diluída em diferentes recursos midiáticos e atividades síncronas e assíncronas, o que não acontece durante a quarentena.

Porque, lógico, não havia um plano de contingência educacional administrativo para essa realidade e a maioria das instituições não estavam preparadas tecnologicamente nem teoricamente.

No caso, como já nos manifestamos em outros artigos, o EAD pode ter um desempenho tão bom ou melhor que as escolas tradicionais, enquanto o ensino emergencial a distância pode não fornecer os mesmos resultados acadêmicos obtidos quando se está em sala de aula. Mas, ainda assim, se o estudante tiver acesso a aprendizado remoto de alta qualidade e em ambiente de aprendizado propício, como um espaço silencioso com distrações mínimas, dispositivos que não precisam compartilhar, internet de alta velocidade e supervisão acadêmica dos pais, o prejuízo será bem reduzido.

Infelizmente, é pequeno o número dos estudantes de baixa renda que estão regularmente acessando instruções on-line enquanto grande parte dos estudantes de alta renda estão engajados e de certa forma adaptados ao ensino remoto. Quem pode vivenciar o processo em boas circunstâncias está tendo uma oportunidade ímpar de aprender a estudar.

Aprendendo a estudar

O ensino virtual como única opção nesses tempos nos evidencia que nunca foi tão importante saber quando e como estudar. É verdadeira habilidade que faz com que o estudante seja um sujeito ativo, com capacidade de controle sobre seu processo cognitivo e motivacional, conseguindo captar, organizar e transformar as informações adquiridas ao longo do tempo.

Esse processo é o chamado aprendizado autorregulado, relatado por Philippe Perrenoud como as “capacidades do sujeito para gerir ele próprio seus projetos, seus progressos, suas estratégias diante das tarefas e obstáculos.”

Todos possuem um certo grau de autorregulação, mas aprimorar essa capacidade, favorecendo uma autonomia no aprender, é extremamente benéfico para o aluno, que também conta com fatores pessoais, como idade e maturidade, bem como sociais e financeiros para atingir esse objetivo.

Houve adaptação às aulas não presenciais?

As instituições, quando da paralisação das aulas no ambiente escolar, buscaram rapidamente soluções para manter os estudantes em atividade. Muitas já preparavam o terreno para as mudanças tecnológicas na educação, mas a pandemia acelerou essa dinâmica.

Então, grosso modo, o processo foi emergencial no início, mas no segundo semestre a maioria das instituições apresentou um regime letivo organizado, embora remoto.

E os estudantes? A situação atual do ensino tem muito a mostrar a todos os envolvidos na educação. De certa forma as crianças puderam se adaptar a esse período e os jovens adultos tem demonstrado bastante superação. Pode-se imaginar uma aproximação entre pais, estudantes e professores e o surgimento de uma série de experiências que serão essenciais para o futuro pós-pandemia.

Há um legado. Professores mais criativos e mais habilidosos com a tecnologia, alunos com maior autonomia, pais com melhor noção da importância da participação ativa na escola e, no geral, uma valorização maior do papel de quem é responsável pelo ensino.

Infelizmente o cenário de desigualdade entre os estudantes impede maior otimismo, mas pela perspectiva de instituições que tiveram sucesso na transição e que estão prontas e dispostas a aproveitar as oportunidades o cenário é promissor.


O processo também permitiu o desenvolvimento de uma autonomia por parte dos estudantes em organizar o tempo e o espaço de estudo, o que exige um esforço maior do que lidar com as novas tecnologias.


Enfim, os educadores apontam que o período de pandemia pode ser um momento de desenvolvimento de competências e habilidades tanto para professores como estudantes. Autoconhecimento, resiliência, flexibilidade, organização autônoma e planejamento do tempo são algumas delas.

No setor profissional teremos maior capacitação dos professores em relação às novas tecnologias, dedicação das instituições para implantar o sistema híbrido de instrução e um melhor entendimento sobre o processo do EAD, modalidade de ensino que cresce incontestavelmente desde 2017.

Infelizmente as mudanças reforçam o abismo que já existia entre as escolas públicas e privadas. Enquanto há uma crise aguda no setor público, de execução orçamentária cada vez mais baixa, no setor privado ainda podemos festejar algum avanço, como as novas atividades e bons hábitos que serão incorporados de forma definitiva na vida escolar e estudantil.

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