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O uso da inteligência artificial na educação superior a partir do Referencial do MEC

 

O Referencial para o Uso e Desenvolvimento Responsáveis de IA na Educação, elaborado pela SEGAPE do Ministério da Educação, constitui instrumento orientador destinado a instituições de ensino, educadores, gestores e formuladores de políticas públicas. O documento reúne princípios e diretrizes voltados à integração ética e socialmente responsável da inteligência artificial nos processos educacionais, em consonância com os marcos legais e com a compreensão da educação como direito fundamental e bem público.


Embora o documento contemple todos os níveis de ensino, da educação infantil à pós-graduação, nosso enfoque no momento recai sobre a educação superior, considerando o papel estratégico das universidades na produção de conhecimento, na formação profissional e na incorporação crítica de novas tecnologias. Entre as diretrizes, destacam-se a supervisão humana no uso da IA, a transparência dos sistemas e o respeito à proteção de dados e à privacidade.


Impactos da inteligência artificial na educação superior

O documento do MEC resgata que a rápida evolução da inteligência artificial, especialmente das tecnologias generativas, impacta diretamente ensino, pesquisa, extensão e gestão acadêmica. Sua incorporação deve ocorrer de forma planejada, orientada por diretrizes institucionais e mecanismos de governança que assegurem a centralidade dos objetivos pedagógicos.


Ferramentas como sistemas adaptativos, tutores inteligentes e assistentes virtuais ampliam possibilidades de personalização do ensino e apoio a metodologias ativas, desde que acompanhadas de mediação docente. Na pesquisa, a IA contribui para análise de dados, revisão de literatura e identificação de padrões, exigindo, contudo, transparência quanto ao seu uso e distinção entre produção humana e apoio automatizado.


Na gestão institucional, sistemas baseados em dados apoiam a tomada de decisões, reforçando a necessidade de investimento na formação de docentes e no desenvolvimento de competências em IA.


Formação de professores e inteligência artificial

O material também faz menção aos cursos de licenciatura, que assumem papel central diante da expansão da IA na educação, pois são responsáveis pela formação dos futuros docentes da educação básica. Torna-se necessário incorporar essas tecnologias de forma crítica e fundamentada, por meio da revisão de currículos e práticas formativas.


A IA pode apoiar o planejamento pedagógico, a análise de dados educacionais e a produção de materiais didáticos, mas sua integração deve ir além do uso instrumental. Além da compreensão de conceitos como dados, algoritmos e aprendizado de máquina, os futuros docentes devem desenvolver competências para avaliar ferramentas tecnológicas e utilizá-las em práticas pedagógicas voltadas à aprendizagem ativa.


Recomenda-se a inserção transversal da IA nos currículos, articulando teoria e prática e já se faz o alerta de que persistem desafios na realidade brasileira, como a formação dos próprios formadores, a infraestrutura disponível e a articulação com as redes de ensino.


Governança e ética no uso da inteligência artificial

O MEC reforça que a incorporação da IA nas instituições de ensino superior exige estruturas capazes de orientar e regular seu uso, como comissões de ética fortalecidas e a criação de instâncias específicas voltadas à IA.


Estas medidas são cruciais para garantir proteção de direitos e supervisão contínua, principalmente em face dos estudos internacionais que indicam um vácuo regulatório significativo, com baixa presença de diretrizes formais em instituições educacionais. Infelizmente, como já publicamos em textos recentes, esta é uma realidade também observada no Brasil, o que pode gerar insegurança jurídica, dificultar a identificação de usos inadequados e ampliar desigualdades.


A criação de comissões de inteligência artificial contribui para a definição de parâmetros éticos, análise de propostas tecnológicas, monitoramento de riscos, como os vieses algorítmicos, e promoção de ações formativas voltadas ao letramento em IA.


Inteligência artificial na pós-graduação e na pesquisa

A crescente adoção de ferramentas de IA tem transformado práticas de pesquisa e formação na pós-graduação. São tecnologias que auxiliam na análise de dados, organização de informações e revisão de literatura, ampliando as possibilidades investigativas.


No entanto, é claro, seu uso exige supervisão rigorosa, especialmente quanto à confiabilidade das fontes e à identificação de vieses. Na redação científica, ferramentas generativas podem apoiar a organização textual e revisão linguística, mas levantam questões relacionadas à autoria, originalidade e plágio, devendo ser utilizadas com transparência.


Outro ponto mencionado no Referencial refere-se à proteção de dados e à soberania científica, considerando a dependência de plataformas privadas. Isso reforça a necessidade de políticas institucionais de proteção de dados e investimentos em infraestrutura tecnológica própria.


Desenvolvimento de competências em inteligência artificial

A presença crescente da IA no contexto acadêmico e profissional impõe às instituições de ensino superior o desafio de formar estudantes capazes de utilizá-la de forma crítica e responsável. Essa formação deve integrar dimensões técnicas, cognitivas e éticas. Os estudantes precisam compreender o funcionamento dessas tecnologias e desenvolver habilidades práticas para sua aplicação em atividades acadêmicas, como análise de dados e organização de informações.


Destaca-se a engenharia de prompts, bem como a necessidade de letramento digital, incluindo verificação de fontes e avaliação crítica dos conteúdos gerados. Questões relacionadas à autoria, plágio e integridade acadêmica são de suma importância e devem ser integradas aos currículos e projetos pedagógicos.


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Críticas ao Referencial

Após a publicação do Referencial, o MEC recebeu críticas relevantes que não podem ser ignoradas.


É que, ao longo dos últimos anos, diversos materiais vêm sendo produzidos sobre a relação entre inteligência artificial e educação, incluindo estudos nacionais e internacionais, bem como documentos da Unesco e de entidades da sociedade civil. Esperava-se, portanto, que o Ministério da Educação, como órgão público, avançasse para além do que já vinha sendo discutido e sistematizado.


Desse modo, embora se reconheça a relevância da iniciativa, o documento, com suas limitações estruturais, acabou sendo considerado insuficiente para orientar políticas públicas efetivas, especialmente por não enfrentar lacunas normativas e institucionais.


Uma das críticas é a adoção de uma visão tecnicista, que trata a inteligência artificial como neutra e ignora sua inserção em contextos permeados por interesses econômicos e políticos. Com isso, o Referencial deixa de enfrentar questões centrais, como dependência tecnológica, uso de dados e intensificação do trabalho docente.


Também se destaca a ausência de uma estrutura clara de governança, indefinição de responsabilidades e fragilidade na regulação de empresas, o que pode favorecer interesses privados em detrimento do interesse público, sendo claro que a educação, em sua forma mais ampla, é uma atividade de interesse público. Além disso, o documento transfere às instituições de ensino responsabilidades técnicas e jurídicas sem oferecer o suporte necessário.


Outro problema é o tratamento superficial da plataformização da educação, sem a devida consideração de efeitos como vigilância, controle comportamental e impactos na diversidade educacional.


O documento, enfim, apresenta fragilidades conceituais, com o uso genérico de noções como soberania digital, sem propostas concretas de regulação e fomento público. Soma-se a isso a pouca atenção às desigualdades estruturais, especialmente de natureza social, racial e tecnológica.



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