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A formação em Enfermagem e o papel do ensino privado

 

A presente reflexão é elaborada à luz da recente publicação do informe técnico que resume a Pesquisa Demografia e Mercado de Trabalho da Enfermagem no Brasil, divulgada pelo Ministério da Saúde (DEGERTS/SGTES/MS). O documento demonstra que o setor privado concentra mais de 90% das instituições de ensino de Enfermagem no país, ao mesmo tempo em que aponta desafios relevantes, como taxas elevadas de evasão, existência de vagas ociosas e desigualdades regionais na oferta formativa.


De acordo com o informe técnico “A formação em enfermagem no Brasil: expansão, desafios e qualidade” (DAL POZ et al., 2026), o país vivenciou, entre 2010 e 2023, um crescimento expressivo na oferta de cursos e vagas, com predominância marcante do setor privado.


A expansão promovida por este setor deve ser compreendida à luz das transformações sociais, econômicas e demográficas vivenciadas pelo país. O aumento da expectativa de vida, a transição epidemiológica e a ampliação do acesso aos serviços de saúde exigiram a formação de um número cada vez maior de profissionais qualificados. Nesse sentido, as instituições privadas desempenharam papel essencial ao viabilizar a ampliação da oferta educacional em ritmo compatível com essa demanda, contribuindo diretamente para a consolidação da Enfermagem como a maior força de trabalho da saúde no Brasil.


Além de ampliar o acesso, o setor privado tem se mostrado capaz de responder a diretrizes institucionais e políticas públicas voltadas à qualificação da formação. A implementação das Diretrizes Curriculares Nacionais para os cursos de Enfermagem e o lançamento de iniciativas voltadas ao apoio às instituições de ensino, conduzidas pelo Ministério da Saúde em parceria com entidades da área, demonstram um movimento coordenado de aprimoramento da formação profissional.


Nessa perspectiva, destaca-se a publicação das novas Diretrizes Curriculares Nacionais para os cursos de graduação em Enfermagem, formalizadas pela Resolução CNE/CES nº 01, de 15 de maio de 2026. As novas DCNs representam um marco na reorientação do ensino, ao estabelecerem parâmetros mais rigorosos para a formação profissional, com ênfase na formação prática, na integração entre ensino e serviço e no alinhamento da formação às necessidades do Sistema Único de Saúde. 


Conforme destacado por representantes do Ministério da Saúde, a qualidade do cuidado em saúde está diretamente relacionada à qualidade da formação dos profissionais. Tal entendimento reforça a responsabilidade das instituições de ensino, especialmente as privadas, na construção de um modelo formativo que articule conhecimentos teóricos, práticas assistenciais e compromisso ético. A valorização de experiências práticas, a inserção dos estudantes em serviços de saúde e a integração entre ensino e serviço são elementos centrais desse processo, contribuindo para a formação de profissionais mais preparados para atuar nas diferentes realidades do Sistema Único de Saúde.


Outro aspecto relevante diz respeito à capacidade das instituições privadas de se adaptarem às demandas contemporâneas da educação e da saúde. A análise dos dados sobre evasão, vagas ociosas e distribuição regional dos cursos, longe de representar um obstáculo, constitui importante instrumento de gestão e planejamento. Ao identificar padrões e desafios, as instituições podem desenvolver estratégias mais eficazes de permanência estudantil, aprimorar seus projetos pedagógicos e alinhar sua oferta formativa às necessidades reais da sociedade.


Ou seja, a existência de vagas não preenchidas e de trajetórias acadêmicas interrompidas deve ser interpretada como um dado que orienta o aperfeiçoamento institucional. Trata-se de um convite à construção de políticas acadêmicas mais inclusivas, ao fortalecimento do acompanhamento discente e à adoção de práticas pedagógicas que favoreçam o engajamento e a permanência dos estudantes. As instituições privadas, pela sua capilaridade e diversidade, encontram-se em posição privilegiada para implementar tais estratégias de forma ágil e eficaz.


Adicionalmente, a concentração regional dos cursos de Enfermagem evidencia tanto desafios quanto oportunidades. Se, por um lado, há maior concentração nas regiões Sudeste e Sul, por outro, abre-se espaço para a expansão planejada e responsável em regiões que ainda demandam maior oferta formativa. Nesse contexto, as instituições privadas podem atuar como agentes de interiorização do ensino, contribuindo para a redução de desigualdades regionais e para a formação de profissionais em áreas estratégicas para o sistema de saúde.


A atuação das instituições privadas também se insere em um ambiente mais amplo de valorização da Enfermagem enquanto profissão. Discussões recentes no âmbito do Supremo Tribunal Federal acerca do piso salarial da categoria demonstram o reconhecimento crescente da importância desses profissionais para o funcionamento do sistema de saúde. Esse movimento de valorização dialoga diretamente com a formação, na medida em que fortalece a atratividade dos cursos e incentiva a permanência dos estudantes, contribuindo para a consolidação de trajetórias profissionais mais estáveis e qualificadas.


Importa destacar, ainda, que a qualificação da formação em Enfermagem não se limita à dimensão técnica, envolvendo também aspectos éticos, sociais e humanos. As instituições de ensino, especialmente as privadas, têm papel fundamental na construção de profissionais comprometidos com os princípios do Sistema Único de Saúde, com a promoção da equidade e com o respeito à dignidade humana. Nesse sentido, a formação em Enfermagem deve ser compreendida como um processo integral, que articula conhecimento científico, sensibilidade social e responsabilidade profissional.


Diante desse conjunto de elementos, torna-se evidente que as instituições privadas constituem a base estruturante da formação em Enfermagem no Brasil. Longe de serem apenas agentes de expansão quantitativa, essas instituições desempenham papel estratégico na consolidação de um modelo formativo capaz de responder às demandas contemporâneas da saúde. O momento atual, marcado pela implementação de novas diretrizes curriculares e pelo fortalecimento de políticas públicas, representa uma oportunidade para aprofundar esse processo de qualificação, com foco na excelência acadêmica, na responsabilidade social e no compromisso com o cuidado.


Ao lado do Estado e das entidades representativas da categoria, as instituições privadas podem contribuir para um novo ciclo de desenvolvimento da formação em saúde, cuja consolidação representa não apenas um avanço educacional, mas também um passo decisivo para a melhoria das condições de saúde da população brasileira.


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