top of page

Diploma de Jornalismo volta ao debate: o que isso significa para as IES?

há 11 minutos
5 min de leitura

Quase 17 anos depois de afastar a obrigatoriedade do diploma de nível superior para o exercício do Jornalismo, o Supremo Tribunal Federal voltou a discutir o tema. Em agosto de 2026, os ministros Flávio Dino e Alexandre de Moraes defenderam a retomada do debate sobre a decisão de 2009. No dia seguinte, Gilmar Mendes, relator do julgamento original, também admitiu a possibilidade de rever o entendimento.


Ou seja, a decisão de 2009 continua em vigor. Na ocasião, por 8 votos a 1, o Plenário do STF considerou incompatível com a Constituição a exigência prevista no Decreto-Lei nº 972/1969. Prevaleceu o entendimento de que condicionar o exercício do Jornalismo à formação específica restringia as liberdades de expressão, informação e imprensa.


A discussão recente surgiu durante o julgamento de um caso relacionado ao direito de resposta e às garantias da atividade jornalística. As manifestações dos ministros trouxeram novamente à pauta os limites da decisão anterior e os critérios para o exercício da profissão. Uma eventual revisão, no entanto, depende de nova deliberação do Tribunal.


O debate ocorre em um ambiente muito diferente daquele de 2009. Na época, a produção profissional de notícias estava concentrada principalmente em jornais, revistas, emissoras de rádio e televisão e portais especializados. Hoje, as redes sociais permitem que qualquer pessoa publique conteúdos e alcance grandes públicos. A inteligência artificial generativa acrescentou outra mudança: textos, imagens, vídeos e áudios podem ser produzidos em poucos segundos, inclusive com aparência de material jornalístico.


Essas transformações não tornam automaticamente jornalistas todos os que produzem conteúdo. Elas, porém, tornam mais complexa a distinção entre informação jornalística, opinião, entretenimento e conteúdo produzido para circular nas plataformas digitais. E, então, a discussão sobre o diploma ganha interesse para as Instituições de Educação Superior: qual é o papel da formação universitária em uma profissão cujas práticas e ferramentas mudaram (e ainda mudarão muito) tão rapidamente?


Responsabilidade pelas publicações


Essa questão aparece no artigo Publicar é direito de todos. Assinar como jornalista, não, de Marcelo Santos, publicado pelo Observatório da Imprensa em 20 de agosto de 2026. O autor distingue o direito de qualquer pessoa produzir e divulgar informações do exercício profissional do Jornalismo. Em sua análise, reconhecer a liberdade de expressão como um direito universal não impede discutir os conhecimentos e as responsabilidades próprios da profissão.


Marcelo Santos também questiona se o Jornalismo possui um conjunto de saberes, técnicas e procedimentos que justifique uma formação específica. Entre os aspectos que destaca estão os métodos de apuração, verificação, atribuição de informações, contraditório, correção e responsabilidade pública. O argumento desloca a discussão da simples exigência de um diploma para uma questão anterior: o que caracteriza a formação de um jornalista e quais competências precisam ser desenvolvidas para o exercício da profissão?


Para as IES, essa pergunta é especialmente relevante diante das mudanças tecnológicas. No Jornalismo, o domínio de ferramentas é apenas parte da formação. O trabalho exige apuração, checagem de informações, avaliação de fontes, contextualização dos fatos e responsabilidade na publicação. Sistemas de inteligência artificial podem auxiliar algumas dessas tarefas, mas seus resultados precisam ser avaliados. A rapidez com que uma ferramenta produz um texto não garante que as informações sejam verdadeiras, relevantes ou apresentadas de maneira equilibrada.


Boa formação nunca foi tão necessária


A expansão dessas ferramentas não elimina a necessidade de formação; torna mais importante discutir o que os cursos devem ensinar. A atualização curricular precisa considerar inteligência artificial, análise de dados, produção multimídia e mecanismos de distribuição de conteúdo. Ao mesmo tempo, deve preservar espaço para fundamentos teóricos, métodos de investigação, ética e compreensão das consequências sociais da atividade jornalística.


Isso não significa apenas acrescentar disciplinas sobre novas tecnologias. É necessário desenvolver atividades que permitam aos estudantes reconhecer erros, verificar conteúdos produzidos por sistemas automatizados, identificar imagens manipuladas e avaliar a confiabilidade das fontes. O objetivo é formar profissionais capazes de utilizar essas ferramentas sem transferir a elas decisões que exigem análise e responsabilidade.


A questão ultrapassa o curso de Jornalismo. Em diversas áreas, ferramentas tecnológicas já executam tarefas que antes dependiam exclusivamente do trabalho humano. Para as instituições de ensino,  é preciso identificar quais competências precisam ser desenvolvidas para que os estudantes compreendam os limites dessas ferramentas, avaliem seus resultados e tomem decisões fundamentadas.


O valor da formação superior, portanto, não pode ser medido apenas pela capacidade de operar um sistema ou executar uma tarefa. Tecnologias específicas podem se tornar obsoletas em pouco tempo. Já a capacidade de analisar problemas, compreender os fundamentos de uma profissão, avaliar evidências e agir com responsabilidade permite ao profissional acompanhar as mudanças sem depender exclusivamente das ferramentas disponíveis em cada momento.


O texto  de Marcelo Santos também levanta uma questão importante para as próprias instituições formadoras: se a formação universitária é relevante para o exercício profissional, é preciso demonstrar o que ela oferece. No caso do Jornalismo, isso envolve explicar como o curso articula teoria, prática, ética, técnicas de apuração e conhecimento sobre a sociedade. A defesa da formação superior não pode se apoiar apenas no valor formal do diploma; precisa considerar as competências que o estudante efetivamente desenvolve.


Há, ainda, uma dimensão jurídica e institucional. Se o STF vier a rediscutir a exigência do diploma, será necessário acompanhar os fundamentos de uma eventual nova decisão, seus efeitos e as possíveis regras de transição para quem já exerce a profissão. Até que isso aconteça, não há mudança na situação jurídica estabelecida em 2009.


A discussão também não é consensual. A Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ) defende a retomada da exigência de formação superior, relacionando a preparação profissional à qualidade técnica e à responsabilidade ética no tratamento da informação. Em sentido distinto, o entendimento firmado pelo STF em 2009 se apoia na proteção constitucional à liberdade de expressão e de imprensa. O debate envolve, assim, tanto a importância da formação profissional quanto os limites constitucionais para estabelecer requisitos de acesso a uma profissão.


Oportunidades


Para as IES, o episódio oferece uma oportunidade de examinar como a formação acadêmica responde às mudanças do mercado de trabalho. Não basta acompanhar o lançamento de novas ferramentas ou adaptar os cursos a cada novidade. É necessário identificar quais conhecimentos e competências os estudantes precisam desenvolver para atuar em ambientes nos quais a produção de conteúdo se tornou mais acessível, mas a verificação da informação continua sendo indispensável.


A possível retomada da exigência do diploma de Jornalismo ainda depende de uma nova discussão e de uma eventual decisão do STF. Independentemente do resultado, o tema coloca uma questão importante para o ensino superior: como preparar profissionais para um mercado em que parte das tarefas pode ser automatizada, mas as decisões continuam exigindo conhecimento, avaliação e responsabilidade? Para as instituições, responder a essa pergunta passa por demonstrar, na organização dos cursos e na formação dos estudantes, o que distingue uma preparação profissional consistente do simples treinamento para utilizar ferramentas.


Leia também e entenda o motivo pelo qual hoje não se exige o diploma para atuar


 

Gostou deste texto? Faça parte de nossa lista de e-mail para receber regularmente materiais como este. Fazendo seu cadastro você também pode receber mais informações sobre nossos cursos, que oferecem informações atualizadas e metodologias adaptadas aos participantes.

  

Temos cursos regulares, já consagrados, dos quais já participaram mais de 800 profissionais das IES. Também modelamos cursos in company sobre temas gerais relacionados ao Direito da Educação Superior, ou mais específicos. Conheça nossas opções e participe de nossos eventos.

Comentários


bottom of page