Inclusão digital e IA: o que a TIC 2025 revela para as instituições de ensino
A transformação digital da educação entrou em uma nova etapa, sem que os problemas de acesso e infraestrutura tenham sido completamente resolvidos. Durante anos, uma parte importante do debate esteve concentrada em garantir computadores, conexão à internet e infraestrutura tecnológica. Com a expansão das plataformas digitais e, mais recentemente, da inteligência artificial generativa, surgiram outras questões: como utilizar essas ferramentas de forma segura e responsável? Como preparar professores e estudantes? Como proteger dados pessoais? E como fazer com que a tecnologia contribua de fato para a aprendizagem?
Os resultados das pesquisas TIC Educação 2025 e TIC Kids Online Brasil 2025 ajudam a mostrar essa mudança. Na educação básica, 80% das escolas com acesso à internet discutiram os impactos das tecnologias digitais sobre a saúde mental dos estudantes em 2025, contra 62% em 2024. Também aumentaram as discussões sobre uso seguro, crítico e responsável das tecnologias, educação midiática, cyberbullying e regras para o uso de ferramentas de inteligência artificial. Entre os gestores, a parcela que discutiu regras para o uso de IA por alunos ou professores passou de 40% para 60% no período.
A inteligência artificial já entrou na rotina escolar. Pela primeira vez, a TIC Educação investigou o uso de IA generativa por gestores escolares e identificou que 53% deles utilizam essas ferramentas em atividades pedagógicas, administrativas ou financeiras. Entre as aplicações estão a criação de conteúdos, elaboração de comunicados, planejamento, produção de relatórios, organização de atividades e análise de dados de desempenho dos alunos. Ao mesmo tempo, apenas 22% dos gestores afirmaram contar com um guia de orientação para o uso da IA no ensino, na aprendizagem ou na gestão.
Essa diferença entre o uso das ferramentas e a existência de orientações claras também interessa às IES. A tecnologia pode ser incorporada rapidamente às rotinas acadêmicas e administrativas, enquanto políticas e procedimentos institucionais levam mais tempo para serem definidos. Não basta estabelecer quais ferramentas podem ser usadas. É preciso definir critérios, responsabilidades e formas de preparar professores, estudantes e equipes administrativas para lidar com as possibilidades e os limites da IA.
A mudança também aparece entre crianças e adolescentes. A edição 2025 da TIC Kids Online Brasil trouxe, pela primeira vez, indicadores nacionais sobre o uso de inteligência artificial generativa por esse público. Entre os usuários de Internet de 9 a 17 anos, 65% utilizaram IA generativa para pelo menos uma das finalidades investigadas, enquanto 59% recorreram a essas ferramentas para pesquisas escolares ou para estudar. A relação com a inteligência artificial começa, portanto, antes da chegada ao ensino superior. O debate sobre inclusão digital já não se resume ao acesso à internet.
Embora a TIC Kids Online tenha como foco crianças e adolescentes, seus resultados ajudam a antecipar questões que chegarão às instituições de educação superior. Os estudantes que ingressam na universidade estão sendo formados em um ambiente digital diferente daquele de poucos anos atrás. Eles utilizam redes sociais, plataformas e aplicativos e, cada vez mais, sistemas capazes de produzir textos, imagens, códigos, respostas e outros conteúdos. Essa realidade precisa ser considerada tanto na formação acadêmica quanto na organização dos próprios processos institucionais.
Um dos pontos mais evidentes é a relação entre inteligência artificial e avaliação da aprendizagem. Se ferramentas generativas conseguem produzir respostas, textos e trabalhos acadêmicos, as instituições precisam definir quais competências pretendem avaliar, como verificar a autoria e de que forma a tecnologia pode ser utilizada sem comprometer os objetivos pedagógicos. A simples proibição das ferramentas não resolve essas questões. É necessário deixar claro o que o estudante deve aprender e demonstrar ao longo da formação e quais critérios devem orientar professores e alunos.
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Outras questões
A formação dos professores também precisa acompanhar a mudança. O uso responsável da IA depende da capacidade de compreender suas possibilidades, identificar erros e vieses, orientar os estudantes e avaliar quando uma ferramenta contribui para determinada atividade e quando pode prejudicar a aprendizagem. A própria TIC Educação aponta a falta de habilidades dos professores como um dos desafios para o desenvolvimento de iniciativas de educação digital, midiática e para a cidadania digital.
A proteção de dados é outro ponto que não pode ficar de fora. O uso de ferramentas de inteligência artificial pode envolver o compartilhamento de informações de estudantes, professores e funcionários. Por isso, a adoção dessas tecnologias precisa vir acompanhada de critérios sobre quais dados podem ser inseridos, em quais ferramentas, com que finalidade e sob quais condições. A agilidade proporcionada pela IA não afasta a responsabilidade da instituição sobre as informações utilizadas em seus processos.
Na gestão, a tecnologia também pode ter aplicações importantes. A IA pode reduzir o tempo gasto em tarefas operacionais, ajudar a organizar informações e apoiar a elaboração de documentos e relatórios. Com isso, equipes podem dedicar mais tempo a atividades que exigem análise e tomada de decisão. A automação, porém, não transfere para a ferramenta a responsabilidade pela decisão. À medida que a IA passa a participar de processos institucionais, é necessário definir quem revisa, valida e responde pelos resultados produzidos.
A educação midiática também aparece com força nos dados. Em 2025, 67% das escolas discutiram a inclusão de atividades de educação midiática e uso crítico das mídias no currículo. Com a circulação cada vez maior de conteúdos produzidos ou modificados por sistemas automatizados, saber avaliar informações, verificar fontes e reconhecer conteúdos manipulados passa a fazer parte de uma formação digital mais ampla.
Nas instituições de educação superior, essa discussão pode alcançar diferentes áreas do conhecimento. A formação profissional já não envolve apenas o domínio de conteúdos específicos. Também é necessário compreender como as tecnologias digitais e os sistemas de IA interferem nas profissões, nos processos de trabalho e na produção de conhecimento. Isso traz consequências para os currículos, os projetos pedagógicos e as estratégias de formação profissional.
O desafio, portanto, não é apenas acompanhar o lançamento de novas ferramentas. As IES precisam organizar esse processo por meio de políticas e critérios que orientem seu uso. Isso inclui formação continuada, diretrizes para utilização acadêmica e administrativa, proteção de dados, integridade acadêmica, avaliação da aprendizagem, apoio aos docentes e definição de responsabilidades.
Os dados da educação básica mostram que esse debate já começou. As pesquisas TIC Educação e TIC Kids Online indicam que a transformação digital envolve não só ampliar o acesso à tecnologia, mas também desenvolver condições para utilizá-la de maneira crítica, segura e produtiva. Para o ensino superior, fica uma questão prática: a instituição está apenas incorporando novas ferramentas ou também está criando as políticas, competências e processos necessários para utilizá-las de forma responsável?
A resposta passa por planejamento: a IA vai continuar transformando a educação e os resultados dessa mudança dependerão da quantidade de ferramentas disponíveis e da capacidade das instituições de integrá-las aos seus objetivos acadêmicos e de preparar as pessoas que irão utilizá-las, além de estabelecer critérios claros para seu uso.

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