• Ana Luiza Santos e Edgar Jacobs

Estudantes querem ser ouvidos quando da retomada de aulas presenciais

Nesta última semana a revista New Yorker publicou interessante artigo sobre como os estudantes norte-americanos estão percebendo os planos de reabertura dos campi; isso exatamente na mesma semana em que o presidente Donald Trump pressiona e cobra publicamente o retorno das aulas presenciais já nos meses de agosto e setembro.


O presidente decidiu expulsar do país todos os estudantes estrangeiros que estiverem matriculados em cursos que estão sendo ministrados remotamente, colocando as universidades e escolas diante de um dilema complicado. Retomam as aulas presenciais ou mantêm as medidas contra a pandemia e perdem os alunos estrangeiros, que, de acordo com a BBC, chegam a representar cerca de 40% do total de estudantes em universidades como MIT ou Yale.


Mais de 1 milhão de estudantes estrangeiros podem ser obrigados a deixar o país caso suas universidades não retomem as aulas presenciais, sendo a China o maior ponto de origem dos atualmente matriculados.


Em verdade, segundo dados do El País, China e Índia concentram juntos mais de meio milhão de alunos estrangeiros: esses estudantes deixaram 36,9 bilhões de dólares (quase 200 bilhões de reais) no país no ano letivo de 2016-2017. Quanto aos brasileiros, são aproximadamente 20 mil estudantes sob risco de expulsão do país.


Muitas universidades e escolas dependem, portanto, dos estrangeiros para sobreviver, mas não se sentem seguras em definir a reabertura de seus campi em um momento em que o país enfrenta novo pico do coronavírus.


O procurador-geral do Estado da Califórnia ajuizou ação contra a medida de Trump, bem como o fizeram a Universidade de Harvard, que propõe aulas somente on-line no próximo semestre, e o MIT (Massachusetts Institute of Technology).


É fato que a maioria das escolas de ensino superior pretende retomar as aulas presenciais. Algumas planejam pequenos ajustes para o calendário acadêmico e também a redução do número de estudantes no campus. Outras estão mudando radicalmente seus calendários e criando três semestres para todo o ano. A ordem é garantir que até dois terços dos estudantes estejam no campus por vez.


Stanford receberá metade de seus alunos de volta ao campus e planeja que a maioria das aulas continue de maneira não-presencial, assim como a Universidade da Califórnia. Harvard retomará com até 40% dos estudantes de volta ao campus, sendo que algumas aulas ocorrerão ao ar livre.


Todas as instituições estão implementando protocolos de segurança, de testes e de rastreamento de contatos. Yale, por exemplo, planeja testar os alunos semanalmente; Bard exigirá que os alunos apresentem resultados negativos para a COVID-19 e Amherst está reservando residências onde os alunos que obtiverem resultados positivos serão colocados em quarentena.


Um sistema híbrido de ensino é esperado como regra geral.


O fato é que os críticos dos planos de abertura são muitos e, como descrito no texto, impiedosos. Eles reconhecem que pode haver perda de receita de matrícula se os alunos atrasarem ou adiarem a educação, o que é uma preocupação institucional considerável, mas entendem que mesmo com todos os protocolos de segurança firmados, as possibilidades de falhas são enormes.


Os testes continuam pouco confiáveis, principalmente para os assintomáticos, sem contar que os campi norte-americanos são bem diferentes dos brasileiros: muitos tem dormitórios com banheiros compartilhados e o contato será inevitável. Existe também a questão de que os jovens tendem a se sentir mais protegidos e podem desafiar as orientações de saúde, sendo, portanto, tanto física quanto psicologicamente mais inclinados a serem superespalhadores da doença.


Muitos educadores ressaltam a inconsequência da juventude como fundamento para a permanência do ensino não-presencial por um período maior.


Outros posicionamentos


A mesma reportagem reforça, no entanto, que durante algumas semanas dezenas de milhares de pessoas em idade universitária participaram de protestos em massa em todo o país e conseguiram se manter seguras. A constatação foi oficializada após testes feitos especificamente em manifestantes das regiões de Nova York, Massachusetts e Pensilvânia, onde a taxa de infecção entre os manifestantes ficou idêntica a da população em geral.


As manifestações aconteceram ao ar livre e praticamente todos usavam máscara, mas a ideia é que os jovens se organizaram por um ideal maior, distribuindo desinfetantes, álcool em gel, além de comida e primeiros socorros. Os protestos foram altamente organizados, demonstrando que a responsabilidade compartilhada pode ser o elemento-chave para o retorno adequado.


Nesta esteira, a convicção de alguns críticos das aulas virtuais é a de que os jovens podem levar esse conhecimento, senso de cuidado e responsabilidade para o campus. Eles poderiam ajudar no preparo dos protocolos de segurança, por exemplo, mas, em vez disso, estão sendo tratados alternadamente como clientes e como crianças, pessoas a serem satisfeitas ou gerenciadas, nos termos da reportagem e em livre tradução.


O que pensam os estudantes


Uma parcela dos estudantes imagina que essa geração está pronta para uma mobilização em prol do retorno seguro às aulas presenciais e que eles precisam ser ouvidos quando da confecção de protocolos, responsabilidade da comunidade e não regras implementadas tão somente pelos gestores escolares.


Estudante ouvido pela reportagem do New Yorker sugere que os alunos possam ajudar os administradores a repensar como as faculdades estão interagindo à distância com quem fica em casa, salientando o caráter desgastante das aulas exclusivamente virtuais.


Os alunos também instigam que as instituições de ensino superior se utilizem de aplicativos como o Novid, que rastreia contatos e alerta as pessoas se elas estiveram próximas a alguém com resultado positivo ou que foi exposto ao vírus.


Para muitos estudantes americanos repensar o ensino superior neste momento de crise juntamente com a faculdade poderia fazer com que surgissem ideias originais e até visionárias. Eles pleiteiam ser ouvidos.


Interessante que a solicitação dos universitários americanos encontra suporte em pesquisa realizada no Brasil, pelo observatório PrEpidemia, por meio de enquete em redes sociais, que concluiu que a preparação para a volta às aulas têm mais chance de sucesso se for pensada em conjunto com os envolvidos. No caso, a pesquisa identificou a opinião de responsáveis por alunos matriculados nas redes pública e particular do Distrito Federal, mas as dificuldades são essencialmente as mesmas.

O estudo revela, inclusive, que a preocupação das escolas não deve se restringir à aprendizagem do conteúdo específico de cada matéria, mas também à adoção adequada de medidas de proteção e atenção às emoções dos alunos desencadeadas pela pandemia. 


Os alunos entrevistados pela New Yorker demonstram, apesar do medo, o desejo de retomar uma rotina mais próxima daquela vivida antes da pandemia, mas sabemos que em países continentais como Estados Unidos e Brasil várias realidades podem ser percebidas.


Como aqui, muitos não se arriscarão em atividades presenciais, outros já retornaram para suas cidades de origem e de lá pretendem seguir os estudos virtuais; muitos outros sequer conseguirão se manter matriculados.


A equação é complexa e exige respostas diferentes para o cenário de cada instituição, analisando-se os prós e os contras, tudo dentro dos estritos parâmetros científicos.


A participação dos alunos e/ou responsáveis na tomada de decisões nos parece, de qualquer maneira, um desejo padrão quando for segura a retomada. O problema é coletivo e as deliberações em conjunto parecem ser uma boa saída.


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