Plano Nacional de Educação: o desafio do ciclo 2026–2036
- Ana Luiza Santos e Edgar Jacobs

- há 1 dia
- 4 min de leitura
O Plano Nacional de Educação (PNE) é o principal instrumento de planejamento da educação no Brasil. Ele define metas, diretrizes e estratégias para um período de dez anos e orienta a atuação conjunta da União, dos estados e dos municípios em todas as etapas de ensino. Apesar dessa importância, a experiência recente mostra um problema recorrente: há um bom nível de elaboração das metas, mas dificuldade real de colocá-las em prática. Esse é o principal desafio do novo ciclo, previsto para 2026 a 2036.
O plano anterior, criado pela Lei nº 13.005/2014, estabeleceu 20 metas acompanhadas de indicadores e estratégias voltadas à ampliação do acesso e à melhoria da qualidade da educação. A proposta incluía mecanismos de acompanhamento e avaliação com base em dados. Mesmo assim, ao final do período, os resultados ficaram abaixo do esperado. Muitas metas não foram cumpridas e, em alguns casos, houve retrocessos, especialmente na educação infantil, na educação profissional e na educação de jovens e adultos. Outro problema foi a falta de dados públicos suficientes para acompanhar várias metas, o que dificultou a transparência e a própria avaliação das políticas.
Isso deixa claro que o maior problema não está em definir metas, mas em executá-las. Entre os fatores que explicam esse baixo desempenho estão as limitações de orçamento, a troca frequente de gestores e os impactos da pandemia de Covid-19. Também pesa a demora na aprovação dos planos educacionais, o que já causou lacunas no planejamento e levou, mais recentemente, à prorrogação do plano anterior para evitar um vazio na legislação. Tudo isso mostra as fragilidades em como a educação é organizada e gerida no país.
A aprovação do novo PNE, por meio do Projeto de Lei nº 2.614/2024, é um passo importante. O plano é mais detalhado que o anterior, com 19 objetivos, 73 metas e 372 estratégias. Ele se organiza em torno de três pontos principais: acesso, qualidade e equidade. A proposta tenta equilibrar a expansão do ensino com a garantia de aprendizagem e a redução das desigualdades.
Um dos principais avanços está na ênfase dada à qualidade da educação. O plano traz metas mais claras sobre aprendizagem, como garantir a alfabetização completa nos primeiros anos do ensino fundamental e melhorar o desempenho dos estudantes ao longo da educação básica. Também aparece uma proposta nova: eliminar níveis muito baixos de aprendizagem, algo que não estava presente de forma tão direta nos planos anteriores.
Outro ponto importante é o foco na equidade. O plano inclui metas específicas para reduzir desigualdades entre diferentes grupos sociais, raciais, regionais e econômicos. Além disso, amplia a atenção a modalidades de ensino que costumam receber menos destaque, como a educação indígena, quilombola, do campo, a educação especial inclusiva e a educação de jovens, adultos e idosos.
Na parte de gestão, o plano também avança. Ele prevê acompanhamento das metas a cada dois anos, integração de bases de dados e a criação de planos bienais de ações educacionais para cada ente federativo. Esses planos conectam metas a políticas concretas, programas e orçamento, o que aproxima o planejamento da execução. A ideia é tornar o PNE mais aplicável e menos dependente de intenções gerais. Afinal, ele é um plano de longo prazo e perpassa por gestões diferentes. Também há previsão de adaptar as metas às realidades locais, com apoio de órgãos técnicos.
Outro avanço relevante é a tentativa de fortalecer a articulação entre União, estados e municípios, dentro do Sistema Nacional de Educação. A criação de espaços permanentes de coordenação busca reduzir a fragmentação da gestão educacional e melhorar a relação entre planejamento, financiamento e execução.
Mesmo com esses avanços, existe um ponto que chama atenção. O plano anterior teve baixo nível de cumprimento, mas o novo amplia ainda mais o número de metas e a ambição das propostas. Isso levanta dúvidas sobre a capacidade real de execução, principalmente diante de problemas conhecidos, como desigualdades regionais, limitações fiscais e dificuldades administrativas em várias partes do país.
Por isso, o sucesso do PNE 2026–2036 vai depender muito da capacidade de execução, o que passa por compromisso político, estabilidade no financiamento, fortalecimento das instituições e melhoria na produção e divulgação de dados educacionais. O acompanhamento público também será fundamental, com participação da sociedade, da imprensa e dos órgãos de controle.
Abre-se, sim, uma oportunidade importante de avanço, mas também coloca-se à prova a forma como a educação é gerida no Brasil. Se for bem executado, pode contribuir para reduzir desigualdades e melhorar a qualidade do ensino. Caso contrário, vamos repetir um padrão já conhecido: planos bem elaborados (sim!) que não se transformam em resultados concretos. Então, mais uma vez, passaremos pelo desafio de planejar melhor e fazer o que está previsto sair do papel.
O novo Plano Nacional de Educação (PNE) para o ciclo 2026–2036 já concluiu sua tramitação no Congresso Nacional, tendo sido aprovado tanto pela Câmara dos Deputados quanto pelo Senado Federal. No momento, o projeto se encontra na fase final do processo legislativo, com destino à sanção presidencial. Atualmente, está aberto o prazo para que o Presidente da República decida entre sancionar integralmente o texto ou vetar, total ou parcialmente, o projeto, o que pode ocorrer até o dia 20 de abril de 2026. Somente após essa etapa é que o PNE passará a ter vigência e produzir efeitos jurídicos.
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