Restrição de celulares nas IES: evidências pedagógicas e autonomia universitária
- Ana Luiza Santos e Edgar Jacobs

- há 5 horas
- 5 min de leitura
A proibição do uso de celulares nas escolas de educação básica, consolidada no Brasil a partir da Lei Federal nº 15.100/2025, está gerando um novo debate. Embora a legislação não se aplique ao ensino superior, algumas instituições privadas, como a Fundação Getulio Vargas, o Insper e a ESPM, anunciaram que iniciariam o primeiro semestre de 2026 com restrições ao uso de celulares em sala de aula.
O que está em jogo não é apenas o aparelho celular em si, mas o significado de sua presença constante em um ambiente que exige concentração, troca intelectual e construção de pensamento crítico. As instituições que optaram por restringir seu uso afirmam que a medida não representa uma rejeição à tecnologia, mas uma tentativa de organizar sua utilização de forma intencional. A Fundação Getulio Vargas, por exemplo, caminha para recomendar que o celular só seja utilizado quando houver relação direta com a atividade pedagógica proposta. O argumento central é que o uso contínuo e não mediado compromete a atenção e empobrece as interações em sala.
A ESPM adota postura semelhante, incentivando que os aparelhos permaneçam guardados, salvo quando solicitados pelo professor. A instituição também estimula a prática de anotações manuscritas, defendendo que escrever à mão contribui para consolidar o aprendizado e fortalecer o engajamento cognitivo. Já o Insper sustenta que a restrição pode cumprir papel formativo, ao reforçar uma postura mais profissional em sala de aula, entendida como primeiro ambiente de responsabilidade coletiva do estudante.
Essas decisões não surgem do nada. Elas atendem a pesquisas que vêm apontando impactos negativos do uso excessivo de celulares sobre atenção, memória de trabalho e desempenho acadêmico. Um dos estudos mais amplos acompanhou mais de 17 mil universitários em instituições da Índia, comparando turmas com e sem restrição ao uso de celulares ao longo de um semestre. Os resultados indicaram ganhos consistentes de aprendizagem nas salas em que os dispositivos foram limitados, com efeitos especialmente significativos entre calouros e estudantes com maior dificuldade acadêmica. Observou-se também redução de interrupções e aumento do foco durante as aulas.
Outras pesquisas, inclusive divulgadas por centros internacionais de referência em estudos econômicos, associaram o uso intenso de celulares, especialmente para jogos, a piores resultados acadêmicos, impactos na saúde e efeitos negativos na empregabilidade inicial. Experimentos conduzidos em universidades norte-americanas mostraram que estudantes incentivados a reduzir o uso do celular relataram maior concentração, melhor frequência e maior satisfação com a vida acadêmica.
Esses dados explicam por que o debate ganhou força também fora do eixo Rio-São Paulo. No Rio Grande do Sul, o Sindicato do Ensino Privado acompanha o movimento, embora nenhuma instituição local tenha anunciado medida semelhante até o momento. A posição predominante é de cautela. Para representantes do setor, o foco não deve ser o celular em si, mas a intencionalidade pedagógica. A discussão não pode ser simplista e reconhecer que o mesmo dispositivo pode tanto dispersar quanto potencializar a aprendizagem, dependendo de como é utilizado.
De outro lado, há instituições que defendem a manutenção do uso livre dos dispositivos como expressão da autonomia universitária. A Link School of Business e a Faculdade Belavista manifestaram-se publicamente contra restrições amplas. Para seus dirigentes, a universidade não deve reproduzir a lógica de tutela típica da educação básica, mas sim preparar o estudante para o exercício responsável da liberdade. O argumento é que, no mercado de trabalho, não haverá proibição de celulares, mas exigência de foco, maturidade e autogestão.
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Dilema
A universidade deve regular comportamentos para garantir condições adequadas de aprendizagem ou confiar na capacidade do estudante de administrar sua própria atenção? A resposta está longe de ser simples. A hiperconectividade transformou a atenção em um recurso disputado permanentemente por redes sociais, aplicativos de mensagens e plataformas de entretenimento. Esperar que todos os estudantes, individualmente, consigam resistir a essa dinâmica pode ser idealista. Por outro lado, substituir autonomia por proibição pode empobrecer a formação para a vida adulta.
Os resultados observados na educação básica também influenciam essa discussão. Pesquisa conduzida pela Frente Parlamentar Mista da Educação em parceria com o Equidade.info, iniciativa vinculada ao Lemann Center da Stanford Graduate School of Education, indicou que mais de 80% dos estudantes relataram maior atenção em sala após a restrição do uso de celulares. Ainda que o contexto da escola seja diferente do universitário, esses dados reforçam a percepção de que ambientes com menos estímulos digitais podem favorecer a concentração.
Ao mesmo tempo, experiências internacionais mostram que o uso pedagógico orientado pode gerar efeitos positivos. O projeto Smile, desenvolvido pela Stanford Graduate School of Education, integra celulares a metodologias ativas, com o professor atuando como mediador. Nesses casos, o dispositivo deixa de ser fonte de distração e passa a funcionar como ferramenta de investigação, colaboração e produção de conhecimento.
Momentos de utilização adequados
Não se deve reduzir o tema a uma oposição entre tecnologia e educação. A questão é a qualidade da mediação pedagógica. Se o uso do celular é planejado, contextualizado e vinculado a objetivos claros, ele pode ampliar possibilidades. Quando é aleatório e contínuo, tende a fragmentar a atenção e dificultar a aprendizagem profunda.
Também é preciso reconhecer que o ensino superior vive um momento de transição geracional. A primeira geração de estudantes que chega à universidade após vivenciar restrições no ensino médio pode encarar essas medidas com naturalidade. Para outros, a universidade sempre representou um espaço de maior liberdade, e qualquer limitação pode ser percebida como retrocesso. A gestão acadêmica precisa equilibrar essas expectativas sem perder de vista sua responsabilidade institucional de garantir condições adequadas de aprendizagem.
O debate sobre celulares em sala de aula é um debate sobre atenção, responsabilidade e projeto pedagógico. Não é apenas sobre decidir se o aparelho pode ou não estar sobre a mesa, mas de definir que tipo de experiência universitária se deseja oferecer. Uma universidade comprometida com a formação intelectual precisa criar ambientes que favoreçam o pensamento concentrado, o diálogo qualificado e a construção coletiva do conhecimento. Ao mesmo tempo, deve preparar seus estudantes para lidar com tecnologias que fazem parte da vida contemporânea, inclusive com todas as tecnologias de inteligência artificial que estão sendo oferecidas ao graduado e que ele precisará analisar com critério.
A saída mais eficiente pode estar em modelos que combinem momentos de restrição com usos pedagógicos orientados. Essa abordagem reconhece que a atenção é um recurso limitado e valioso, mas também que a tecnologia pode ser aliada quando bem integrada. Criar regras gerais sem construir uma cultura acadêmica que valorize foco, responsabilidade e intencionalidade talvez não seja produtivo.
A abordagem da questão no ensino superior está apenas começando e tudo indica que não haverá solução padronizada. Cada instituição precisará refletir sobre seu perfil de estudantes, suas metodologias e seu projeto formativo. O importante é que a decisão não seja tomada por impulso, mas baseada em evidências e em uma visão clara do papel da universidade nesta sociedade hiperconectada.
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